Estamos numa fase de esvaziamento do ser

Basta observar a realidade ao redor para perceber que algo mudou na forma como as pessoas se relacionam, seja consigo mesmas ou com o mundo. Nunca houve tanto acesso à informação, tantas formas de comunicação e tantas possibilidades de interação. Ainda assim, cresce a sensação de que “algo está faltando”. No decorrer dos dias, entre telas bem iluminadas e a busca constante por resultados, muitas pessoas parecem estar cada vez mais distantes de si mesmas.
O mundo se acostumou a valorizar a velocidade, isso é fato. É preciso produzir mais, responder mais rápido, aparecer mais e conquistar mais, segundo a lógica da sociedade atual. Nesse processo, no entanto, mesmo cercadas por tantas possibilidades, muitas pessoas convivem com sentimentos de vazio, insatisfação e desconexão entre o mundo interior e o exterior. Isso ocorre porque o excesso de estímulos nem sempre é acompanhado de propósito. O que estamos perdendo ao viver constantemente com pressa? Até que ponto nossa urgência está sufocando nossa capacidade de sentir?
Vivemos em um mundo altamente conectado. A sociedade aprendeu a compartilhar momentos, mas nem sempre a vivê-los. Fica claro que o esvaziamento do ser não acontece de forma repentina, ele surge aos poucos. E esse processo se comprova cada vez mais pelo fato da ascensão das redes sociais estar diretamente ligada ao aumento global dos níveis de doenças mentais pelo planeta.
Esse processo, embora silencioso, produz consequências profundas. As relações estão cada vez mais superficiais, a escuta está se tornando rara a cada instante, e a felicidade é ocultada através de personagens construídos. É notório que um dos maiores desafios da atualidade seja justamente distinguir aquilo que realmente somos daquilo que aparentamos ser.
Observamos que esse “esvaziamento” do ser talvez não esteja relacionado à falta de oportunidades no mundo exterior, mas, sim, a uma perda gradual da capacidade de olhar para dentro e se ressignificar. Esse cenário, ligado à hiperconexão, à sobrecarga de estímulos e a cultura da exposição, fragmenta a nossa atenção e nos afasta do verdadeiro autoconhecimento. São tantas exigências, distrações e cobranças que reaprender a cultivar valores, propósito e disciplina se tornou motivo de risadas e um objetivo que se mantém longe da sociedade em que vivemos.
Autor:
Pedro Henrique Mariano Barbosa é escritor, pesquisador e jornalista.