Reflexões sobre Capital, Classe Média e Fragmentação da Esquerda

A compreensão da dinâmica social exige partir da noção fundamental de que o capital só se sustenta pela exploração do trabalho não pago. Marx (2013), em O Capital, é categórico ao afirmar que “o valor de mais-valia só pode nascer do sobretrabalho do trabalhador”. Ou seja, o capital não é uma entidade abstrata, mas o resultado direto da apropriação privada da riqueza socialmente produzida.
Nessa perspectiva, é importante destacar que o simples enriquecimento individual não confere a alguém a condição de burguês. Marx e Engels (2007) lembram, no Manifesto Comunista, que “a história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes”. A burguesia não se define pela posse de bens, mas pela posição estrutural de controle dos meios de produção e da capacidade de extrair mais-valia. Assim, alguém pode acumular patrimônio sem, no entanto, integrar o núcleo da classe dominante.
Nesse processo, a classe média exerce um papel peculiar. Antonio Gramsci (1999) já apontava que o poder das classes dominantes não se sustenta apenas pela coerção, mas sobretudo pelo consenso e pela difusão de uma hegemonia cultural. É nesse ponto que a classe média se torna fundamental: ela não produz riquezas no sentido marxista do termo, mas atua como transmissora da ideologia burguesa, reproduzindo valores e práticas que asseguram a manutenção do sistema.
Marilena Chaui, em Cidadania e Cultura (1989), observa que “a ideologia funciona como o cimento que liga os indivíduos às condições sociais de existência”. Assim, a classe média, muitas vezes sem consciência de seu lugar histórico, reforça a dominação ao bajular a burguesia e ao oprimir os já oprimidos, acreditando-se protagonista quando, na verdade, ocupa posição subalterna. Em outro momento, Chaui (2006) destaca que “a ideologia oculta as contradições sociais, apresentando como natural o que é histórico”. Esse ocultamento explica por que a classe média se torna guardiã de valores que, paradoxalmente, também a oprimem.
Ao mesmo tempo, a esquerda contemporânea vive um processo de esfacelamento. A fragmentação em representações isoladas, muitas vezes limitadas a agendas setoriais, enfraquece a possibilidade de formação de um bloco histórico capaz de enfrentar a hegemonia neoliberal. Enquanto isso, o neoliberalismo, por meio de sua racionalidade unificadora, foi capaz de organizar a direita, criando coesão discursiva e política, o que abriu espaço para o fortalecimento do extremismo.
Essa contradição foi apontada por Chaui (2014), quando afirma que “a democracia neoliberal é, na verdade, a negação da democracia, porque transforma a cidadania em consumo e a política em gestão empresarial”. Ou seja, a fragmentação da esquerda contrasta com a disciplinada organização da direita, que avança justamente pela articulação entre economia, cultura e política.
Em suma, refletir sobre o lugar do capital, da classe média e da esquerda significa reconhecer que a luta de classes permanece como motor da história. A compreensão crítica das mediações ideológicas, como lembra Marilena Chaui, é condição para romper com a aparência de neutralidade e evidenciar que “o poder não é uma coisa, mas uma relação social”. A esquerda, se pretende recuperar relevância, precisa reconstruir sua unidade e disputar a hegemonia cultural, sob pena de continuar assistindo à consolidação da ordem neoliberal e ao avanço das forças reacionárias.
Referências
- CHAUÍ, Marilena. Cidadania e Cultura. São Paulo: Moderna, 1989.
- CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2006.
- CHAUÍ, Marilena. Democracia e Sociedade. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
- GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
- MARX, Karl. O Capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
- MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2007.
Autor:
Julênio Braga Rodrigues
Doutor em Educação, Mestre em Gestão Pública, MBA em Gestão de Cidades e Especialista em Ciência Política