Jornal Tribuna

Especialistas dos EUA, Argentina e Brasil defendem alfabetização matemática desde a infância

Por edicao·
Especialistas dos EUA, Argentina e Brasil defendem alfabetização matemática desde a infância

[São Paulo – Junho de 2026] A promoção da aprendizagem matemática desde a primeira infância é uma das estratégias mais promissoras para reduzir desigualdades educacionais e ampliar as oportunidades de desenvolvimento das crianças. Esse foi o principal consenso entre especialistas do Brasil, da Argentina e dos Estados Unidos reunidos no 2º Seminário Internacional do movimento Gente que Soma – Aprendizagem Matemática para Todos, realizado em São Paulo, na Arena B3. Ao longo do encontro, educadores, pesquisadores e gestores públicos apresentaram evidências científicas e experiências de políticas públicas que reforçam a necessidade de incluir a alfabetização matemática entre as prioridades da educação básica.

Gente que Soma é uma iniciativa do Instituto Reúna, com apoio da B3 Social, Aliança pela Alfabetização (Associação Bem Comum, Fundação Lemann, Instituto Natura e NOVA Foundation), Fundação Itaú e Fundação Telefônica Vivo.

Na ocasião, palestrantes e painelistas convergiram em um ponto: a aprendizagem matemática não começa no ensino fundamental. As oportunidades oferecidas às crianças na educação infantil influenciam diretamente seu desenvolvimento cognitivo, sua trajetória escolar e suas possibilidades futuras de aprendizagem.

A professora emérita Deborah Stipek, da pós-graduação da faculdade de Educação da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, apresentou evidências sobre a relação entre o desenvolvimento matemático e funções cognitivas fundamentais da infância. “Há um desenvolvimento extremamente rápido do córtex pré-frontal entre os três e cinco anos e, acreditem ou não, trabalhar com matemática pode ajudar nesse processo. Portanto, fazer exercícios de matemática ajuda a construir as funções executivas, como controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva”, afirmou.

A especialista destacou ainda que a matemática na primeira infância vai muito além da contagem de números e do reconhecimento de formas, envolvendo também padrões, comparação, classificação, resolução de problemas e raciocínio lógico.

O seminário também apresentou experiências concretas de políticas públicas voltadas à aprendizagem matemática. Um dos destaques foi o caso da província de Mendoza, na Argentina, que transformou a matemática em prioridade educacional em todos os níveis de ensino, incluindo a educação infantil. Segundo Nélida Maluf, diretora de Planejamento da Qualidade Educativa do Ministério de Educação, Cultura, Infâncias e Direção Geral de Escola da Província de Mendoza, a estratégia combina expansão da oferta educacional, formação docente e acompanhamento sistemático das aprendizagens. “Em Mendoza, temos o Plano Estratégico de Alfabetização (PEAM), que coloca a matemática como prioridade em todos os níveis educativos, de forma muito similar ao que ocorre aqui no Brasil. Nosso pré-escolar, que chamamos de Nível Inicial, é obrigatório para crianças de quatro e cinco anos, e estamos expandindo para os três anos devido a mudanças demográficas. Hoje, temos mais de 600 jardins de infância e um corpo docente de mais de 2.500 professores, além de auxiliares que nos apoiam especificamente na alfabetização precoce e matemática”, ressaltou.

Matemática e equidade

A urgência de enfrentar as desigualdades na aprendizagem matemática foi tema do painel “A urgência da equidade: por que a matemática na infância não pode esperar?”, que reuniu Mariane Koslinski, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Victor Eyng, coordenador-geral de Ensino Fundamental do Ministério da Educação (MEC); Guilherme Lichand, pesquisador da Stanford Graduate School of Education; e Sonia Dias, gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social, como mediadora.

O debate destacou que o chamado “abismo matemático” surge antes mesmo do ingresso das crianças no ensino fundamental, refletindo desigualdades de acesso a experiências educativas de qualidade e impactando os resultados observados ao longo de toda a educação básica. “Este painel nos mostra que há urgência em discutir a equidade na aprendizagem matemática porque carregamos um passivo histórico importante. Quando tantas crianças chegam ao ensino fundamental já em condições desiguais de desenvolvimento, não estamos diante de um desafio que pode ser adiado”, alertou Sonia Dias.

A especialista reforçou que a valorização da matemática na infância não deve ser compreendida como uma disputa entre áreas do conhecimento. “Também é importante destacar que defender a matemática na infância não significa colocá-la em competição com outras áreas do conhecimento. Pelo contrário. Estamos falando de garantir experiências de aprendizagem integrais, nas quais a curiosidade, a linguagem, as interações, as brincadeiras e o raciocínio matemático se desenvolvem de forma articulada”, acrescentou.

Para Katia Smole, diretora-executiva do Instituto Reúna, o evento reforçou a necessidade de que a alfabetização matemática ocupe lugar estratégico nas políticas educacionais brasileiras. “O Seminário fomentou ótimas discussões sobre os problemas e as soluções possíveis para todos os educadores e reforçou que a matemática precisa fazer parte do currículo desde a educação infantil, com a alfabetização matemática recebendo tanta atenção quanto aprender a ler e a escrever na língua materna”, afirmou.

“A aprendizagem em matemática desde a primeira infância é decisiva para o desenvolvimento das crianças e para a redução das desigualdades educacionais ao longo de toda a trajetória escolar. Iniciativas como o Gente que Soma reforçam a importância do engajamento conjunto entre setor privado, poder público, especialistas e sociedade civil para ampliar o acesso a boas práticas e fortalecer a alfabetização matemática no Brasil ”, afirma Fabiana Prianti, head da B3 Social.

Lançamento de pesquisa

Durante o Seminário, Katia Smole apresentou a pesquisa Aprender Matemática: evidências sobre o início da trajetória escolar, do Instituto Reúna e estará disponível no site em, aproximadamente, 15 dias. O documento reúne a análise de 90 publicações da literatura acadêmica sobre aprendizagem de matemática para crianças pequenas, e apresenta três conclusões principais: o desenvolvimento do pensamento matemático também apoia a alfabetização na língua materna; as habilidades matemáticas estão associadas ao sucesso acadêmico de longo prazo, e políticas públicas devem promover aprendizagem adequada em matemática desde a primeira infância. 

A programação completa do Seminário está disponível no site, onde estão publicadas também fotos do evento, apresentações dos convidados que foram exibidas no telão, informações sobre as edições anteriores e o manifesto Gente que Soma. 

Autora:

Elaine Cristina Alves

Comentários

Deixe um comentário