A MORTE DE CHARLIE KIRK

Quando o feed de minha rede social encontrou, não tão despretensiosamente, a notícia de
que Charlie Kirk foi assassinado, confesso e sem o menor pudor que o que a mim veio foi
alegria genuína — a alegria que ainda mantém-se mas ofusca-se pela luz sórdida de um
medo.
Pois, fui posto em um momento, não tão breve, de paradoxo. Entre dois aspectos que
relutam entre si: a alegria, justificada pelo meu repúdio; e o medo do ataque, presente nesta
violência, à nossa liberdade democrática. É quando, compungidamente, a alegria se acovarda
por ser alegre.
Se acovarda porque até mesmo da mais enorme repulsa se pare um resquício, mesmo
ínfimo, de humanidade e empatia. Apesar de que eu não sinta pesar na morte de Charlie,
jamais pautarei a vitória de um lado pela desqualificação da humanidade de seu opositor.
E, novamente, se acovarda por que se enche de um medo de gente que não entende bem, que
não consegue entender. Porque me inquieto pelo fim de um perverso facínora? que é da
perversidade daquela que não tolera a minha existência. Talvez porque sei que este não é o
começo da corrente, nem o final. Retóricas haverão atrás de retóricas, ecoadas pelo ódio que
se inflama à língua daqueles que partilham o seu asco. É quando a primavera se inverte e nos
grita o aumento do risco do florescimento de mais e mais sangue.
Neste ímpeto, vemos como direitos fundamentais de nossa humanidade são apenas lições
intermitentes que jazem apenas quando convém, perante grupos específicos que variam.
É esta coisa que me faz perder o sono, que rebenta e rasga minha rotina, que me transcende
vorazmente: são as irracionais crises de violência que, travestidas de justiça, me calam toda
noite. Exijo em mim a sede pela verdade, dilacerando a minha nudez toda vez que não a
alcanço. É que estou sonso, atônito, boquiaberto, que, em cada vez que o rio se divide, há esta
coisa deixada de lado, arrasada, que me temo quando volto para bebê-la. Pois eu me
experimento nela, neste aspecto que o mundo nos dera infundado.
E, por favor, se dê e experimente-se também. É um desamparo que nos consagra humano.
Autor:
Ronaldo de Oliveira