Jornal Tribuna

Vale a pena fazer faculdade na era da inteligência artificial?

Por Grayce Rodrigues·
Vale a pena fazer faculdade na era da inteligência artificial?

O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) e a automação de processos redefiniram as dinâmicas globais de contratação e produtividade, trazendo de volta um questionamento estrutural para as novas gerações: o diploma universitário ainda é o caminho mais seguro para a ascensão social e o sucesso financeiro?

Historicamente visto no Brasil como o principal passaporte para a estabilidade econômica, o Ensino Superior tradicional enfrenta o desafio de preparar profissionais para um mercado em constante mutação, onde habilidades técnicas operacionais correm o risco de rápida obsolescência.

Para analistas do setor, a tecnologia não anula a necessidade de formação, mas exige uma mudança profunda de postura dos estudantes. “O grande erro de quem está entrando no mercado de trabalho hoje é acreditar que um pedaço de papel na parede vai garantir o seu futuro. Na velocidade em que a tecnologia avança, o aprendizado precisa ser contínuo e, acima de tudo, prático”, avalia o economista Charles Mendlowicz, sócio da Ticker Wealth e fundador do canal Economista Sincero.

O impacto da IA e a redefinição de carreiras

O mercado corporativo vive um momento de forte transição produtiva, impulsionado por aportes massivos em infraestrutura digital e ecossistemas de dados. Funções burocráticas, de análise padronizada de relatórios ou de suporte operacional, tendem a ser progressivamente absorvidas por ferramentas de IA.

Nesse novo panorama, carreiras regulamentadas que exigem um alto nível de especialização técnica combinado com responsabilidade civil e tomadas de decisão éticas complexas, como a Medicina, mantêm-se resilientes e com bom retorno financeiro estimado.

Mendlowicz aponta que o foco profissional deve estar direcionado para a máxima eficiência no próprio campo de atuação, em vez de dispersar energia em atividades especulativas de curto prazo que prometem enriquecimento rápido. “Se você é médico, por exemplo, o que é melhor: perder três horas com day trade ou se dedicar ao seu ofício, ganhar mais e investir em algo que te pague um dividendo mais seguro?”, questiona o economista.

Sob a ótica do mercado de capitais, Mendlowicz avalia que o valor real de uma formação acadêmica de ponta na atualidade reside não apenas no conteúdo programático (que muitas vezes se desatualiza antes mesmo da formatura), mas na capacidade de gerar conexões estratégicas, desenvolver o pensamento crítico e capacitar o indivíduo para funções de liderança institucional e gestão de crises, competências ainda distantes da automação completa.

Estratégia de patrimônio e a democratização financeira

Além da escolha da carreira, o Economista Sincero acredita que a sobrevivência financeira na era tecnológica exige a consolidação de investimentos de forma paralela ao desenvolvimento profissional. “A barreira de entrada para o mercado financeiro caiu drasticamente nos últimos anos, permitindo que jovens construam patrimônio de forma concomitante ao período de graduação”, afirma Mendlowicz.

A tese defendida pelo economista é a de que a estabilidade de longo prazo depende menos do salário nominal inicial e mais da disciplina de alocação de capital em ativos geradores de renda, como ações e fundos imobiliários.

“Hoje, é possível investir muito cedo e com pouco recurso, com apenas R$ 20 por mês, por exemplo”, destaca o sócio da Ticker Wealth. De acordo com a sua análise, a regularidade dos aportes é o fator determinante para a multiplicação patrimonial, potencializada pelos juros compostos ao longo do tempo: “Se você investir um pouco sempre, o montante vai crescer. Com o tempo, o resultado acelera e fica mais rápido multiplicar o dinheiro”.

Charles Mendlowicz indica que o Ensino Superior ainda apresenta vantagens competitivas relevantes, mas deixou de ser uma fórmula estática de sucesso. “O profissional do ecossistema contemporâneo precisa atuar de forma híbrida: utilizando a faculdade como plataforma de fundamentação técnica e relações institucionais, enquanto desenvolve inteligência financeira e capacidade de adaptação para navegar em um mercado moldado por algoritmos”, conclui o economista.

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