IA deixa fase experimental e passa a redefinir operação das empresas, aponta SAP Sapphire 2026

Depois de anos de experimentação, a inteligência artificial entra em uma nova fase de maturidade e passa a ocupar um papel central na operação das empresas. A pressão já não está apenas em testar novas ferramentas, mas em garantir que dados, processos e sistemas consigam sustentar automação em escala sem ampliar complexidade e risco operacional.
Esse movimento ficou evidente durante o SAP Sapphire 2026, realizado recentemente em Orlando (EUA), que consolidou uma mudança importante na forma como a SAP está reposicionando sua estratégia para os próximos anos.
Um dos principais temas discutidos no evento foi o conceito de “Autonomous Enterprise”, baseado na utilização de agentes inteligentes conectados diretamente aos processos corporativos. Na prática, a proposta é que áreas como supply chain, finanças, compras, RH e atendimento passem a operar com fluxos cada vez mais automatizados, capazes de executar tarefas completas com contexto de negócio e tomada de decisão em tempo real. Mais do que automatizar tarefas, a proposta é automatizar decisões e orquestrar processos de ponta a ponta.
Essa mudança ajuda a explicar por que o ERP voltou ao centro das discussões estratégicas dentro das empresas. Com ambientes cada vez mais orientados por IA, os sistemas corporativos passam a concentrar também a base necessária para automação, analytics e decisões operacionais em escala.
Durante muito tempo, o debate esteve concentrado principalmente nas possibilidades abertas pelos modelos generativos. Agora, a conversa avança para um estágio mais pragmático, no qual produtividade, eficiência operacional e geração de valor para o negócio passam a ser os indicadores de sucesso.
O principal desafio que nós, da Essence, observamos nesse cenário é garantir que arquitetura, dados e governança estejam preparados para sustentar automação em escala. Sem essa base, iniciativas de inteligência artificial tendem a permanecer restritas a projetos isolados, com dificuldade de gerar impacto consistente nos processos corporativos.
A consolidação da SAP Business AI Platform e o protagonismo crescente do SAP Business Data Cloud mostraram que a próxima fase da IA empresarial dependerá muito mais da qualidade dos dados corporativos e da capacidade de conectar ambientes complexos do que apenas da adoção de novas ferramentas.
Outro tema recorrente no Sapphire foi o fortalecimento do conceito de Clean Core dentro do ecossistema SAP. Mais do que uma recomendação técnica, o Clean Core passa a assumir um papel estratégico na simplificação dos ambientes SAP, tornando-se um dos principais habilitadores para que as organizações consigam absorver novas tecnologias com maior velocidade, reduzir complexidade operacional e preservar a capacidade de evolução contínua dos sistemas.
A discussão ganha ainda mais relevância diante da proximidade do fim do suporte ao SAP ECC em 2027. Em praticamente todas as trilhas do evento, ficou evidente a pressão crescente para que empresas acelerem projetos de modernização, migração para cloud e revisão arquitetural dos ambientes corporativos.
Para o mercado brasileiro, o impacto tende a ser imediato. O país possui uma base extremamente relevante de empresas SAP em setores como indústria, agronegócio, varejo, utilities e serviços financeiros. No entanto, muitas dessas organizações ainda convivem com ambientes híbridos, alto grau de customização e desafios significativos de integração entre sistemas.
Essa realidade pode dificultar a captura de valor das novas capacidades de IA apresentadas pela SAP, tornando ainda mais relevante a revisão da arquitetura tecnológica, dos modelos de governança e da estratégia de dados. Para nós, a capacidade de gerar resultados concretos com inteligência artificial estará diretamente ligada ao nível de preparação dos ambientes corporativos para operar de forma integrada e escalável.
6 tendências que mais chamaram atenção no SAP Sapphire 2026
Segundo Emílio Chiofetti, seis movimentos concentraram grande parte das discussões estratégicas ao longo do evento:
- IA deixa os pilotos e entra na operação: a inteligência artificial passa a integrar diretamente aos fluxos críticos de negócio, especialmente em áreas como supply chain, finanças, compras e atendimento.
- Crescimento dos agentes autônomos: os chamados “AI agents” ganharam protagonismo no evento ao demonstrar capacidade de executar tarefas completas com contexto de negócio, integração entre sistemas e tomada de decisão em tempo real.
- Dados tornam-se o combustível da IA corporativa: a qualidade, integração e governança dos dados corporativos apareceram como pré-requisito para viabilizar automação em escala e geração consistente de valor.
- Pressão por simplificação dos ambientes SAP: o conceito de Clean Core ganhou força como resposta ao excesso de customizações que dificultam inovação contínua, atualização tecnológica e integração de novas capacidades de IA.
- Modernização acelerada pelo fim do SAP ECC: a proximidade do encerramento do suporte ao SAP ECC em 2027 continua pressionando empresas a acelerarem migração para cloud e revisão arquitetural dos ambientes corporativos.
- O foco muda do hype para o resultado: as discussões começaram a migrar da experimentação para temas como produtividade, eficiência operacional, integração e retorno concreto para o negócio.
A próxima etapa será definida pela capacidade das organizações de preparar seus ambientes para operá-las de forma integrada, segura e escalável. Nesse contexto, iniciativas como modernização de ERP, migração para cloud, governança de dados e adoção de práticas de Clean Core deixam de ser apenas projetos de tecnologia e passam a representar decisões diretamente ligadas à competitividade dos negócios.
As organizações brasileiras que conseguirem reduzir a complexidade, fortalecer sua base de dados e evoluir sua arquitetura tecnológica estarão mais preparadas para capturar os ganhos de produtividade, eficiência e inovação que já começam a definir a próxima geração da transformação digital.
O SAP Sapphire 2026 deixou uma mensagem clara para o mercado: a próxima onda de transformação digital não será definida apenas pela adoção de inteligência artificial, mas pela capacidade das empresas de integrar dados, processos e tecnologia em uma plataforma preparada para operar em escala. Nesse cenário, competitividade e maturidade tecnológica passam a caminhar lado a lado.
Autor:
Emílio Chiofetti, head de Inovação e Vendas da Essence