Caiado em seu cavalo branco está prestes a roubar a noiva do Bolsonaro

Os brasileiros que não aguentam mais a polarização vigente na política brasileira estão em festa. Encontraram finalmente o seu tertius, com chances reais de poder. Pela primeira vez um grande partido de centro, com capilaridade nacional e uma tonelada de recursos partidários, abraça uma candidatura própria compromissada com a união nacional da família brasileira e a sua premissa principal, o progresso socioeconômico do país. Para fazer chorar os liberais, que sonhavam em jogar Leite sobre as esperanças do Brasil profundo, vem do Oeste a voz do candango de 76 anos, montado em seu cavalo branco. És capaz de ouvir a voz do Oeste ainda, que murmura do coração do país histórias de trabalho e grandeza? Vem lhe fazendo sombra e eco o colosso da memória de Juscelino. Vá e diga a todo mundo: no PSD de Getúlio Vargas, Juscelino acabou de renascer!

Nos bastidores da política nacional, a movimentação articulada por Gilberto Kassab ao lançar Ronaldo Caiado como pré-candidato à Presidência foi vista com grande surpresa para todos os analistas da epiderme do jogo político. Compromissados com a estratégia lulista, já anunciam aos quatro cantos que Caiado e Bolsonaro são o mesmo, como se fosse um Haddad a usar máscara de Lula na campanha presidencial, um poste a mais e apenas. Quem olhar para a trajetória do goiano verá logo as rusgas e os atritos que o tornaram figura maldita entre os bolsnaro, tendo enfrentado e vencido em Goiás todos os prepostos de Jair. Sua candidatura não é apenas mais uma aposta eleitoral — trata-se de uma estratégia com ambição histórica: recontar a narrativa da direita no Brasil.

A leitura de Kassab parte de um diagnóstico claro. Nos últimos anos, o bolsonarismo passou a ocupar quase sozinho o espaço simbólico da direita, como se fosse seu ponto de origem. Ao colocar Caiado na disputa, a intenção é justamente tensionar essa ideia e evidenciar que a direita brasileira antecede Jair Bolsonaro — e que não se resume a ele. Caiado tem história, tem peso, sustenta-se sobre os próprios pés, declara-se como sempre um independente. Já Flávio, pode-se argumentar, deve tudo ao papai, é o verdadeiro poste, o verdadeiro candidato de barra de saia. O tragicômico “boa noite presidente Lula” de 2018 será, agora, “boa noite presidente Jair”.

Nesse contexto, Caiado surge como um adversário direto capaz de “roubar” o eleitorado de Bolsonaro, como uma figura que resgata um estilo político mais antigo, mais visceral e ideologicamente explícito. Seu papel é fragmentar a base bolsonarista e expor que houve uma apropriação desse campo político ao longo dos últimos anos. Bolsonaro faz com a história da direita brasileira o que Lula fizera com a história da esquerda no Brasil: apagamento, cancelamento do passado. “Eu sou o marco zero da história, a história começa comigo”, proclamam em uníssono. Traidores da memória, arvorados a pais fundadores de um campo político que os precede séculos no tempo profundo da profícua história pátria, acusarão de traidores todos aqueles que ousarem quebrar o encanto e apontarem as vias da memória. Caiado será taxado de traidor, exatamente como Ciro Gomes fora. Mas poderá argumentar que quem trai de verdade, uma traição mais amarga porque pecaminosa, é Flávio, que parece renegar o próprio pai. Quer se apresentar como moderado, centrado, comedido, enfim, tudo aquilo que seu pai não fora, acreditano que não possui as falhas do pai e tão somente as virtudes. Ocorre que o povo brasileiro via o jeito histriônico de Jair como a sua maior virtude, o pulso firme e a autoridade que ele exalava em sua postura estão completamente ausentes – e são renegadas mesmo – pelo filho mais velho, a própria imagem da pusilanimidade. Caiado, pelo contrário, é tudo o que encantava o brasileiro médio na figura de Jair, sendo ao mesmo tempo tudo o que Flávio se esforça em parecer ser: sua moderação, seu perfil democrático vivido e consagrado na sua biografia, se harmonizam em Caiado com seu estilo firme, direto, cheio de autoridade, capaz de impor o respeito a todos os brasileiros. A metáfora não é sequer adequada a um político ficha limpa com ele, com 40 anos de vida pública ilibada, mas Caiado é o único capaz de “roubar” votos do Bolsonaro. E ainda poderá argumentar que de roubo, seus adversários é que entendem.

O bolsonarismo enfrenta uma tensão interna que agora pode ser explicitada e explorada por Caiado. De um lado, emula-se moderação — com Flávio buscando se apresentar como uma figura mais ao centro, dialogando com diferentes espectros, mas incapaz de atrair partidos aliados à aventura da grande rejeição que carrega. De outro, a emergência de Caiado representa o oposto: uma direita sem filtros, mais histriônica, direta, que aposta na retórica contundente e no confronto aberto — justamente características que impulsionaram Bolsonaro no passado – ao mesmo tempo que com capacidade de diálogo e de construção de apoios partidários.

É nesse contraste que a estratégia ganha força. Os articuladores da campanha de Caiado devem explorar a imagem do roubador de votos, produzindo imagens de Caiado em um cavalo branco cortejando Michele Bolsonaro como possível vice em sua chapa. Michele, do alto de uma torre onde a trancafiaram (candidata ideal à presidência que seria, por parte considerável dos apoiadores de Jair), vê Caiado imponente desfilar com seus cavalo lá em baixo e sonha em poder ir com ele. Levar ao debate as crises e brigas internas da família Bolsonaro que opuseram e opõem ainda Michele e os filhos de Jair pode render a Caiado maiores rotulações de traição, mas o goiano já está na chuva.. Uma imagem poderosa e simbólica, capaz de dialogar com o eleitorado conservador sem romper completamente com o capital político do bolsonarismo, atraindo o eleitorado evangélico para si – eleitorado este que parece desgostoso com a escolha de Flávio – vocaliza uma mensagem clara: há vida — e história — na direita para além de Bolsonaro.

O alerta, portanto, não é apenas eleitoral, mas narrativo. Caiado pode revelar ao eleitorado que o ex-presidente não criou a direita brasileira — apenas a ocupou em um momento de vácuo político. No fim das contas, a disputa que se desenha não é apenas por votos, mas por legado. E, nesse jogo, a maior ameaça a Bolsonaro talvez não venha de fora, mas das contradições internas de seu próprio campo político.

Sonho ainda com Ciro Gomes de vice na chapa com Caiado. Sempre me pareceu a melhor combinação, já a defendi em outros textos. Mas com a hipótese cada vez mais distante, o brado agora é por Aldo Rebelo vice de Caiado. A chapa síntese do centro-oeste, sudeste e nordeste, com palanques fortes já estabelecidos nos principais colégios eleitorais do país (BA com ACM, CE com Ciro, PR com Ratinho, MG, PE, RJ e RS), pode finalmente libertar as energias nacionais para o progresso.

Autor:

João Batista M. Prates – mestre em Filosofia; especialista em Gestão e Controle Social das Políticas Públicas no Brasil, e em Direto Público Municipal.

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