Neste artigo, dialogamos com o psicanalista José Luiz de Sousa Neto sobre a política e sua relação com a psicanálise. A temática é de extrema importância em um ano marcado pelas eleições que ocorrerão no Brasil, além de permitir maior conscientização dos eleitores no momento do voto.
Sr. José, qual a relação da psicanálise com a política?
– A relação é clara e evidente, no sentido de que a psicanálise explica que o inconsciente humano é uma formação composta por restos de linguagem. Nesse sentido, não conheço nenhum ser humano que tenha conseguido explorar e trazer à tona todo o seu inconsciente.
A política desperta afetos inconscientes, trazendo à tona medos arcaicos, ódio, inveja, fantasias e esperança. Freud explica que o indivíduo, ao estar diante de uma massa política, manifesta posicionamentos infantis e primários. Assim, a política se torna uma arena na qual as pessoas são levadas a uma cena primordial da natureza humana: a experiência da perda. Para muitos, essa perda é vivida como um risco à própria sobrevivência.
E como os políticos exploram isso nas pessoas?
– Fica evidente que os discursos políticos quase não apresentam ideias ou projetos concretos, especialmente durante as campanhas eleitorais. Os políticos recorrem, em grande parte, a argumentos que evocam emoções, como: “não voltaremos ao passado”, “vai haver perseguição à religião de vocês”, “vão acabar com os benefícios sociais”. Nesse sentido, surgem discursos que mobilizam medo, esperança, culpa e um certo messianismo.
Assim, uma simples ideia passa a ser percebida como uma ameaça. Não há espaço para uma construção sólida de bases que sustentem, de fato, uma reestruturação do sistema. Tudo passa a ter um lado, um time, como se o psiquismo retornasse ao seu modelo primário, no qual a luta pela sobrevivência se estabelece como em uma guerra.
Isso é tão sério que, inclusive, dentro das famílias, as pessoas passam a se ofender por ideias de políticos que sequer conhecem pessoalmente. Os próprios políticos deveriam estar atentos a isso, pois determinados discursos podem evocar situações que os coloquem em risco, inclusive quanto à sua integridade física.
E como esse discurso se torna convincente na prática?
– Como mencionei, existe uma associação inconsciente entre o político, o Estado e as primeiras relações humanas. Um indivíduo que não recebeu amor suficiente de seus cuidadores pode passar a acreditar que precisa receber do Estado aquilo que lhe faltou. Nesse sentido, desenvolve-se uma certa dependência e uma visão desqualificadora daqueles que não dependem diretamente desse sistema.
O indivíduo passa, então, a olhar o líder político como um Ideal de Eu: alguém com um discurso absoluto, que supostamente sabe resolver tudo e que, de certa forma, dispensa o sujeito de pensar, duvidar e sustentar a falta. Considerando que o Brasil possui uma grande massa de pessoas marcadas por desestruturações familiares, não é incomum que esses discursos e posicionamentos se tornem recorrentes no cenário político.
E quais obstáculos isso cria para o avanço do Brasil?
– O principal problema é que isso impede que os assuntos sejam discutidos de forma estratégica e profunda. Tudo se torna imediatista, muitas vezes visando apenas uma possível reeleição futura. Acredito que a dependência excessiva da política para a sobrevivência seja algo extremamente perigoso a longo prazo, pois tende a gerar a manutenção de vínculos duradouros que inibem a entrada de novas pessoas.
A política não deveria ser um espaço ocupado apenas com o objetivo de remuneração. Se esse for o caso, o caminho mais sensato seria a realização de um concurso público. Infelizmente, muitos indivíduos, mesmo não dependendo financeiramente da política, acabam se encantando com o poder. Isso também deriva da dificuldade em sustentar a falta, o que faz com que se perca o objetivo maior: servir à comunidade.
Quando observamos políticos antigos e experientes atacando seus opositores com termos como “traidor”, “golpista” e outros adjetivos semelhantes, fica evidente uma imaturidade que se revela sem qualquer compromisso com a diplomacia e o respeito ao outro. Chega-se, inclusive, a normalizar expressões como “rifar o outro”, o que demonstra que ainda existem enormes obstáculos para que pessoas verdadeiramente amadurecidas ingressem nessa arena com intenções legítimas.
Acredito que isso só mudará quando a população elevar seu nível de consciência, voltar-se para dentro e compreender que é necessário alterar a rota que estamos traçando ao longo das últimas décadas.


