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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Passado, presente e sem futuro

Sara Vaz é Mãe de Santo e vidente. Faz Mapa Astral, mede Aura, joga Búzios, Tarô, lê folhas de chá, borra de café e bola de cristal. Presencial e on line. Revende Natura, aceita encomendas de coxinhas e brigadeiros. Devido à liquidação do Master e à fiscalização do PIX pela Receita Federal, passou a cobrar uma galinha por consulta. Sem recibo. A vida de Sara Vaz não é fácil. Depois da Inteligência Artificial, os clientes minguaram e querem pagar só após o resultado. Nenhum esotérico previu.

Então, teve a ideia de convidar clientes VIP e observadores para discutirem a retomada das atividades. A anfitriã instalou os clientes VIP à direita e os observadores à esquerda, todos em desconfortáveis cadeiras de plástico. Ao centro, uma enorme pira queima incensos variados.

Após 40 minutos de rituais de purificação, mantras e chás, Sara Vaz iniciou os trabalhos. A coisa começou a descambar quando os VIPs, todos políticos de correntes opostas disputando o apoio dos esotéricos, passaram a fazer campanha, exaltar seus méritos e criticar os oponentes.

Com a ameaça de cadeirada, o ambiente descambou, mas Sara Vaz foi salva por dois observadores, a quem pediu para retomar o tema central. Porém, ambos focaram na política em vez de oferecer sugestões para aumentar a clientela e o faturamento dos videntes. Primeiro falou Mark Twain.

– Se votar fizesse alguma diferença, não nos deixariam fazer isso.

– Ninguém é suficientemente competente para governar outra pessoa sem seu consentimento – completou Abraham Lincoln.

Voltaram as agressões verbais entre os políticos, acusações de Fake News e xingamentos, de ignorante para pior. Concordaram apenas que a retomada do crescimento econômico no curto prazo é coisa de mentirosos, missão impossível.

– Uma vez eliminado o impossível, o resto deve ser a verdade – disse Sherlock.

– O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete – emendou Aristóteles.

Os candidatos se xingavam de tolo, débil mental e coisas impublicáveis. Não paravam de falar e Sara, atônita, calou-se. Lincoln não desperdiçou a oportunidade:

– É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é tolo, do que falar e acabar com a dúvida. 

– Grandes conhecimentos geram grandes dúvidas – disse Aristóteles. Porém, até aqui, não vi conhecimento algum. Apenas ficção.

– A diferença entre verdade e ficção é que a ficção faz mais sentido – disse Mark Twain. Isso deveria parecer óbvio.

– O mundo está cheio de obviedades que ninguém enxerga – falou Sherlock.

Sara quer encerrar o evento, pois os observadores cobram por hora. Quando os políticos ameaçaram ir embora, notou que dois brasileiros ficaram calados o tempo todo e pediu suas considerações:

– Há sujeitos tão inábeis que suas ausências preenchem uma lacuna – falou Stanislaw Ponte Preta.

– De onde menos se espera, daí é que não sai nada – disse o Barão de Itararé.

– Hoje em dia, ninguém é bonzinho de graça – finalizou Ponte Preta.

Tudo certo e nada resolvido. O evento foi encerrado e os observadores evaporaram, sem cobrar. A cabeça de Sara Vaz latejava quando a copeira trouxe um copo de água e café forte.

– Onde foi todo mundo?

– Todo mundo quem, Madame?

– Mark Twain, Lincoln, Aristóteles, Sherlock, os brasileiros. Estavam aqui agorinha!

– A Madame confundiu os potes e tomou chá de cogumelo em vez de erva cidreira quando repunha livros clássicos na estante.

– Então não teve evento com clientes e personalidades?

– Não. A Madame pos maconha na incenseira, chapou e delirou a noite toda.

– Por que você não me acordou?

– E perder o Big Brother? Eu, heim!

– Alguma novidade na correspondência de hoje?

– Não. Só propagandas, cobranças e cartas de políticos pedindo doações para campanha.

O trabalho de vidente é insano. Se no Brasil, até o passado é incerto, como prever o futuro e receber somente após o resultado? O lado bom é que a granja de Sara Vaz já conta com 380 galinhas, mas comer omeletes todo dia é dose! Vida que segue. Ou não! Quem consegue prever?

Laerte Temple
Laerte Temple
Administrador, advogado, mestre, doutor, professor universitário. Autor de Humor na Quarentena (Kindle) e Todos a Bordo (Kindle). Crônicas de humor toda sexta-feira, às 10h.

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