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Democracia para ricos, aceitação para o resto: o projeto de país de Paulo Bilynskyj

Por Manuel Flavio Saiol Pacheco·
Democracia para ricos, aceitação para o resto: o projeto de país de Paulo Bilynskyj

Paulo Bilynskyj, deputado federal do PL e rosto ordeiro do bolsonarismo, resolveu dizer em voz alta o que muita gente da elite só cochicha atrás de muro alto: pobre não deveria votar, especialmente aquele que recebe auxílio do governo.

Em sua visão torta, o cidadão que mais sente na pele a fome, o desemprego e a precariedade vira suspeito automático, como se dignidade mínima anulasse a capacidade de escolha, um tipo de higienização eleitoral que sonha com urna limpa de pobre e cheia de CNPJ, agronegócio e condomínio fechado.

É o velho preconceito de classe com discurso de responsabilidade, a tentativa de rebaixar direitos sociais à condição de propina, como se a democracia fosse clube privado em que só entra quem nunca precisou do SUS, do CRAS ou do Bolsa Família.

Não satisfeito em atacar o voto dos mais vulneráveis, Bilynskyj decidiu brincar de recortar o mapa do Brasil como se estivesse lidando com um tabuleiro infantil: propôs separar o país em dois, criando um Brasil do Norte, com Norte e Nordeste, e outro Brasil para Sul, Sudeste e Centro-Oeste, como prêmio de consolação para quem se acha mais produtivo e civilizado.

A mensagem é cristalina: se o povo de certas regiões insiste em votar errado, então que se corte o excesso, que se ampute o que não combina com o projeto de poder da extrema direita, como se integridade territorial e pacto federativo fossem detalhes descartáveis.

Ao comparar Santa Catarina com o Maranhão e sentenciar que o segundo é uma merda, o deputado não está fazendo análise de dados, está xingando um estado inteiro, reforçando o racismo estrutural e o desprezo histórico pelo Nordeste e pelo Norte, transformando desigualdade produzida por séculos de abandono em piada para agradar plateia hostil.

Esse roteiro não é acaso: Bilynskyj é filiado ao PL de São Paulo, orbitando confortavelmente o universo bolsonarista que aprendeu a transformar ressentimento em palanque.

A estética é conhecida: fala grossa, ignorância econômica travestida de coragem e um ódio metódico a tudo o que lembre política social, diversidade regional ou gente pobre votando com a própria cabeça.

Nesse imaginário, direitos sociais são sempre esmola, políticas de combate à fome são compra de voto e o eleitor pobre é um ser tutelado, incapaz, que precisa ser afastado da urna para não atrapalhar o projeto de país dos empreendedores de bem.

A biografia política e policial do deputado só reforça o contraste entre a imagem de defensor da ordem e o rastro de controvérsia que o acompanha. Antes de chegar à Câmara, ele ficou conhecido como delegado influenciador envolvido no caso da morte da namorada, Priscila Bairros, que teria atirado seis vezes contra ele e depois se matado com um tiro no peito, episódio que, embora tenha sido oficialmente arquivado como tentativa de homicídio seguida de suicídio, foi alvo de diversas reportagens apontando inconsistências, falhas e dúvidas levantadas pela família.

Em paralelo, sua carreira na Polícia Civil de São Paulo acumulou processos administrativos e terminou em demissão, após um vídeo de teor racista publicado em seu canal, episódio em que ele tentou atribuir a responsabilidade à própria namorada que depois morreu, numa inversão moral que revela muito sobre quem ele escolhe como bode expiatório.

É esse histórico, entre a crônica policial, o racismo em vídeo e a autopromoção digital, que hoje se senta em uma cadeira de deputado para decidir sobre direitos de milhões de brasileiros.

Quando alguém com esse passado e esse discurso passa a defender que pobres não votem e que o país seja fatiado para punir regiões que não obedecem ao script eleitoral desejado, não se está diante de opinião polêmica, mas de um projeto de exclusão em escala nacional.

Esta não é a voz da segurança pública nem da eficiência econômica, é a voz de quem tem vergonha do próprio povo, de quem enxerga o Nordeste como problema, o auxílio como crime e a democracia como risco quando ela permite que a periferia, o sertão e a favela também falem na urna.

O Brasil que Bilynskyj considera uma merda é justamente o Brasil que insiste em sobreviver, votar e existir, e, no fim das contas, é isso que torna o discurso dele tão revelador: o incômodo não é com a miséria, é com o pobre que insiste em continuar sendo cidadão.

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