“Tempo de Samba”, álbum instrumental de Rodrigo Lessa e Edu Neves, chega às plataformas dia 3 de junho

A música instrumental brasileira, em sua vertente carioca, tem como principal trunfo o equilíbrio entre o virtuosismo e o largo poder de comunicação, entre a sofisticação formal e o calor do asfalto. É nessa linhagem de ourivesaria musical que caminham Rodrigo Lessa e Edu Neves, arquitetos de uma sonoridade que não pede licença para fundir o choro tradicional com sotaques de diversas encruzilhadas. Em sua nova criação, o álbum Tempo de Samba, a dupla reafirma a cumplicidade forjada em décadas de estrada – do Nó em Pingo d’Água, de Rodrigo, ao Pagode Jazz Sardinha’s Club, de ambos – e oferece um painel em que choro, jazz, samba e música latina convivem sem arestas.
Com produção musical e arranjos de Rodrigo Lessa, o álbum se apresenta como uma suíte de brasilidade urbana, em que o bandolim de Lessa e os sopros (flauta e sax soprano) de Neves dialogam como num entalhe de precisão cirúrgica. Aqui, o “tempo” do título ganha múltiplo sentido (o balanço binário compartilhado com o choro, o clima que convida, a época cíclica de reafirmação do gênero), da mesma maneira que sugere a capacidade elástica de gêneros como o samba, o choro-canção e o maxixe se reinventarem sob o prisma da contemporaneidade. Entre o lirismo e a síncope, o disco desenha uma cartografia musical que ignora fronteiras rígidas, permitindo que o choro respire ares de gafieira moderna e sofisticação camerística.
No repertório, as composições autorais – todas inéditas, à exceção de “No gurufim do Tio Sam” (de Rodrigo Lessa e Edu Neves) – revelam o fôlego criativo da dupla. Temas como “Montuno carioca” (de Rodrigo) e “Maxixe acebolado” (de Edu) são exemplares dessa centrifugação rítmica, enquanto “Samba Infinito” (de Rodrigo) expõe a fluência de uma escrita que investe na exuberância do discurso e na multiplicidade de elementos, mas que jamais abdica da melodia. Há espaço tanto para a homenagem afetiva em “Nelson” (de Edu), quanto para a verve lúdica de “Manual prático para uma boa vadiagem” (de Rodrigo), expressão que evoca a malandragem insolente dos antigos mestres da Lapa.
Para sustentar tamanha arquitetura, o time de artesãos escalado é de primeira grandeza. O violão de sete cordas do mestre Carlinhos 7 Cordas e o violão de Luís Louchard formam a base harmônica sob medida para os voos solistas, enquanto a percussão em bloco de Marcus Thadeu, Bruno Barreto e Lucas Videla garante o molho sempre untuoso e bem temperado. É um time bastante coeso e consciente: todos jogam para o conjunto com primoroso senso de equilíbrio.
A excelência técnica do registro também merece nota. Gravado na histórica Companhia dos Técnicos por William Jr., com complementos no estúdio Umuarama, de Ricardo Calafate, o álbum apresenta uma notável transparência sonora. A mixagem de David Brinkworth é particularmente detalhista e garante a escuta de todas as camadas sonoras presentes nos arranjos, sem perder o caldo denso e apimentado do cozido à carioca.
Tempo de Samba, em resumo, é um manifesto de resistência e renovação. Rodrigo Lessa e Edu Neves provam que a música instrumental brasileira, quando tratada com dignidade e frescor, é uma fonte inesgotável de maravilhas. Este é um álbum que se aprecia com o ouvido atento e o corpo em movimento na pista, celebrando a vadiagem pródiga de quem sabe que, para alcançar o mundo, é preciso mergulhar fundo no próprio quintal.
Por Luís Filipe de Lima
Repertório:
1-Tererô (Rodrigo Lessa)
2-Manual prático para uma boa vadiagem (Rodrigo Lessa)
3-Tô cãozinho (Rodrigo Lessa e Edu Neves)
4-No gurufim do Tio Sam (Rodrigo Lessa e Edu Neves)
5-Nelson (Edu Neves)
6-Montuno carioca (Rodrigo Lessa)
7-Samba infinito (Rodrigo Lessa)
8-Maxixe acebolado (Edu Neves)
9-Capataz Dionízio (Rodrigo Lessa e Edu Neves)
Ficha Técnica
Rodrigo Lessa – bandolim
Edu Neves – flauta e sax soprano
Antonio Neves – trombone
Carlinhos 7 Cordas – violão de sete cordas
Luís Louchard – violão
Bruno Barreto – percussão
Lucas Videla – percussão
Marcus Thadeu – bateria e percussão
Produção musical e arranjos: Rodrigo Lessa
Capa: Adriana Brant
Mixagem e masterização David Brinkworth
Gravado em Cia dos Técnicos e no Estúdio Umuarama
Sobre Rodrigo Lessa:
Rodrigo Lessa é um prestigiado instrumentista, compositor, arranjador e produtor carioca, reconhecido por sua versatilidade no bandolim e violão. Iniciou sua trajetória de destaque na década de 1980, ao ingressar no grupo Nó em Pingo d’Água, um dos mais respeitados conjuntos de choro do país. Além disso, foi um dos fundadores da Orquestra de Cordas Brasileiras em 1989, trabalho que lhe rendeu o Prêmio Sharp de Melhor Grupo Instrumental, consolidando seu papel na renovação da música instrumental brasileira.
Sua atuação artística expandiu-se com a fundação do grupo Pagode Jazz Sardinha’s Club, em parceria com Eduardo Neves, unindo o samba ao jazz e à música instrumental contemporânea. Por este projeto, recebeu o Prêmio Tim de Melhor Grupo Instrumental em 2004. Ao longo de sua carreira, colaborou como arranjador e músico ao lado de ícones da MPB, incluindo nomes como Paulo Moura, Guinga, Ivan Lins, Paulinho da Viola, Ney Matogrosso e Dona Ivone Lara, demonstrando uma habilidade singular em transitar por diferentes gêneros e formações.
Na carreira solo, Rodrigo Lessa possui uma discografia autoral robusta, iniciada com o álbum Solbambá (1997) e seguida por títulos como Feito à Mão (2001), No Bangalô da Bandola (2004) e o mais recente No Jeito (2021), que celebra a alma carioca através do samba e do choro. Como compositor, suas obras foram interpretadas por artistas de renome e figuraram em festivais importantes. Rodrigo continua ativo na cena musical, assinando produções e arranjos para novos talentos, como no disco “Rueira”, de Marina Iris, e explorando fusões rítmicas com o Sexteto Sucupira.
Sobre Edu Neves:
Edu Neves é um dos mais respeitados flautistas, saxofonistas, arranjadores e compositores da cena musical carioca contemporânea. Iniciou seus estudos musicais aos dez anos e teve como mestres figuras icônicas a exemplo de Nicolino Cópia (o Copinha), desenvolvendo uma sonoridade que transita com fluidez entre o choro, o samba e o jazz. Profissional desde os 16 anos, ele se consolidou como uma referência nos instrumentos de sopro, sendo um dos principais nomes da revitalização do choro e da música instrumental no Rio de Janeiro.
Ao longo de sua trajetória, Neves construiu uma carreira sólida tanto como solista quanto como colaborador de grandes nomes da música popular brasileira. Foi integrante de longa data da banda de Zeca Pagodinho e tocou com artistas do calibre de Maria Bethânia, Guinga, Hermeto Pascoal e Hamilton de Holanda. Além de sua atuação como músico acompanhador, Edu ganhou destaque como fundador e líder do grupo Pagode Jazz Sardinha’s Club, projeto que funde ritmos brasileiros com improvisação jazzística e que lhe rendeu o Prêmio da Música Brasileira de melhor grupo de jazz.
Sua discografia inclui álbuns aclamados como Gafieira de Bolso, Olayá, Baile do Almeidinha (com Hamilton de Holanda), Cosmopolita (com Rogério Caetano), Sambatown (com Marcos Suzano) e Elza Canta e Chora Lupi (com Elza Soares), trabalhos que refletem sua habilidade em mesclar tradição e modernidade. Além das performances nos palcos, Edu dedica-se à educação musical, ministrando cursos de improvisação e participando ativamente em instituições de ensino musical. Sua produção artística é marcada por uma sensível assinatura carioca que une técnica refinada e conhecimento harmônico sofisticado a uma profunda pesquisa rítmica, reafirmando seu papel vital na manutenção e renovação da linguagem instrumental do Brasil.
Autora:
Belinha Almendra