Reflexões para empresas que avaliam se tornar patrocinadoras em autogestão

A saúde suplementar corporativa está prestes a passar por uma mudança importante. Com a nova regulamentação das autogestões, estabelecida pela Resolução Normativa (RN) nº 649/2025 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e prevista para entrar em vigor em julho de 2026, empresas de diferentes setores poderão se tornar patrocinadoras de uma mesma operadora de autogestão em saúde. A expectativa é que o novo modelo desperte o interesse de companhias que buscam maior controle sobre custos assistenciais e maior participação na gestão da saúde de seus colaboradores.
Hoje, a contratação de planos de saúde no Brasil ocorre em três modalidades: individual ou familiar, coletiva por adesão e coletiva empresarial. Atualmente, cerca de 73% dos beneficiários de planos de saúde estão vinculados a contratos empresariais, segundo dados da ANS. Esse modelo se consolidou por permitir ganho de escala, diluição de risco e maior previsibilidade para operadoras e beneficiários.
Com a mudança regulatória, empresas que atualmente contratam planos corporativos poderão avaliar modelos de autogestão, especialmente por meio de estruturas já existentes no mercado. Nesse formato, a companhia deixa de pagar apenas uma mensalidade fixa para participar mais diretamente da gestão e do risco assistencial do plano.
Na prática, isso significa que os custos passam a refletir mais diretamente a utilização real dos serviços de saúde pelos beneficiários, além das despesas administrativas necessárias para a operação do plano. Apesar das potenciais vantagens em previsibilidade e gestão, esse modelo também exige maior maturidade operacional, capacidade analítica e disposição para absorver oscilações de custo.
Além disso, essa possibilidade não se aplica da mesma forma a todas as organizações. Embora não existam barreiras necessariamente legais, há fatores técnicos importantes, como escala mínima de beneficiários e maior previsibilidade estatística da população coberta, que ajudam a reduzir a volatilidade do risco.
Na autogestão, a empresa deixa de terceirizar integralmente o risco assistencial e passa a participar diretamente da sustentabilidade financeira do plano. Por isso, torna-se fundamental assumir um papel mais ativo na gestão da saúde, com iniciativas de prevenção, coordenação do cuidado e uso estratégico de dados assistenciais.
Outro ponto relevante é a forma como os custos são distribuídos internamente. Muitas organizações buscam refletir as despesas com saúde em seus processos orçamentários, tentando alocar gastos por áreas ou diretorias. No entanto, o plano de saúde opera sob uma lógica coletiva de compartilhamento de risco. Esse princípio, conhecido como mutualismo, permite diluir financeiramente casos de alto custo entre toda a população coberta, reduzindo volatilidade e preservando maior estabilidade ao sistema.
Existem diferentes modelos para distribuir esses custos internamente. Um dos mais utilizados é o rateio per capita, no qual o custo total é dividido proporcionalmente ao número de beneficiários em cada área. Esse formato preserva integralmente o mutualismo e evita distorções provocadas por eventos aleatórios.
Já no modelo de alocação direta, cada área absorve os custos efetivamente gerados por seus colaboradores. Embora possa parecer mais justo sob a ótica da responsabilização, esse formato tende a aumentar significativamente a volatilidade, especialmente em situações de alta complexidade concentradas em um único grupo.
Entre esses extremos, modelos híbridos costumam oferecer maior equilíbrio. Neles, parte dos custos permanece compartilhada coletivamente — especialmente eventos de alta complexidade e baixa frequência — enquanto despesas mais previsíveis podem ser distribuídas conforme a utilização de cada área. Esse desenho permite conciliar o princípio do mutualismo com mecanismos de gestão e conscientização sobre o uso dos recursos de saúde.
Do ponto de vista orçamentário, preservar o mutualismo, sobretudo em eventos de alto custo e baixa frequência, tende a fazer mais sentido para a sustentabilidade do sistema. A segmentação excessiva do risco pode fragilizar a lógica do seguro e gerar distorções na gestão corporativa. Por outro lado, ampliar a visibilidade sobre padrões de utilização pode ser um instrumento importante para fortalecer ações de saúde corporativa, prevenção e engajamento dos colaboradores.
A ampliação das possibilidades de autogestão pode representar uma transformação relevante no mercado de saúde suplementar empresarial. No entanto, antes de migrar para esse modelo, as organizações precisarão avaliar não apenas o potencial de controle de custos, mas também sua capacidade de governança, gestão assistencial e absorção de risco.
Autora:
Italoema Sanglard é Head de Saúde Suplementar da Prospera, Unidade de Negócios do Grupo Funcional. Atua há mais de 18 anos com consultoria e dentro das principais operadoras de saúde do Brasil. É formada em Ciências Atuariais pela UFMG e possui MBA em Gestão Empresarial pela FGV.