Jornal Tribuna

O morango

Por Carolina Bonora·
O morango

A verdade é que eu gosto de poder entender as coisas e gosto quando as coisas fazem sentido. Não sei se é algum tipo de rebeldia, mas tenho ainda dificuldade em fazer algo que não concorde ou que não entenda só porque alguém disse que tem que ser feito. Primeiro eu tenho que entender. E, de preferência, concordar. A partir daí tudo tem chance de ficar mais fácil. 

Quando fiz seis anos de idade, ganhei meu primeiro livro de estórias. Lembro bem dele, suas ilustrações aquareladas têm um lugar especial guardado no meu coração. Mantive-o guardado por quase dez anos até que minha mãe, que era professora, o levou para uma atividade na escola e o livro nunca mais voltou. Mas como ele tinha mesmo que ser meu, anos depois, uma amiga que já tinha me ouvido falar sobre o livro, por acaso encontrou uma cópia num sebo e me deu de presente. Ainda o tenho e hoje meus filhos conhecem as estórias.

Amava quase todas elas. Uma me intrigava muito e eu nunca consegui me conformar com a falta de sentido que eu achava que ela tinha. Eu não entendia. Os morangos, de Rubem Alves. É a curta estória de um homem que, fugindo de um leão, caiu num precipício. Na queda acabou se segurando numa raiz que saia do barranco. Nela, ficou. De repente, avista um morango maduro bem em sua frente. Estica a mão e come o morango. “Estava delicioso.” Uma frase depois a estória acaba. 

A criança que eu era não queria saber do morango ali. Queria saber o que aconteceu depois. Como é que ele acaba a estória assim? Queria saber como foi que ele saiu de lá! De que tamanho era o precipício? Ou era só um barranco grande? E o leão de quem estava fugindo, o que aconteceu com ele? Foi embora? O devorou após a sôfrega saída do abismo? Mas não. Ele simplesmente esquece aquilo tudo e come a porra do morango. Eu nem sabia xingar ainda naquela época, mas já sentia a necessidade de saber. Ora, o mundo precisava fazer sentido. 

 Eu também me lembro de sempre ter sido uma criança bem criança mesmo. Aquela autêntica geração do comecinho dos anos oitenta que mal assistia televisão e brincava na porta de casa. Que acreditava em qualquer lorota que me contassem. Eu acreditava de graça nas pessoas e era muito ingênua. O mundo fez o seu papel de colocar outras pessoas em minha vida depois que me mostraram bem direitinho que se pode confiar mesmo é em quase ninguém. 

Mas houve alguns raros momentos pontuais em que eu, mesmo sendo criança, me desconectava daquela idade que eu tinha e me via pelo olhar de uma outra idade. Eu conseguia enxergar com clareza a limitação que eu ainda tinha num determinado aspecto, na minha idade. Lembro que um dia meu pai copiou o desenho de um pato de uma ilustração de um livro que agora não me lembro bem se era deste mesmo que estou contando ou outro. Eu até então não tinha visto ainda uma cópia sendo feita assim ao vivo e nem desconfiava que aquele pato impresso na página era feito por gente. De repente saiu um pato igualzinho, mas feito em grafite. Aí eu fiz o pato também. Lá pelos meus seis anos de idade. Olhei os dois desenhos lado a lado. Pluct. Desconectei. Era como se eu tivesse saído do corpo um pouquinho e olhasse os desenhos sobre meu próprio ombro com outra outra idade. Percebi com muita clareza o abismo, sim, esse era grande, que havia entre o desenho do meu pai e o meu. Me senti insuperavelmente frustrada. Tinha a noção clara de que não chegaria nem perto daquilo ali no pouco futuro que eu conseguia imaginar. E olha que meu pai não é desenhista. Foi um lampejo de maturidade. 

Ao ler aquela estória eu era apenas a menina fora do lampejo. A menina novamente frustrada, agora com aquela estória tão sem graça dentro de um livro com tantas estórias encantadoras. Afinal, era um homem fugindo de um leão. Ninguém escapa de um leão. Era um livro simbólico, vindo da bondade do escritor de conduzir os pais na difícil missão de explicar as coisas dolorosas da vida para seus filhos. Que leão seria aquele? Era um leão mesmo? Ou ele estaria fugindo de um ladrão, de uma guerra, de um parente maldoso? De qualquer maneira, era um leão e era terrível. 

E ele conseguiu fugir dos dentes do leão. Mas não conseguiu fugir do que a vida lhe guardava. Em meio a fuga, entrou no precipício. O autor não falou, mas eu sei que ele usou a palavra precipício, este nome tão grave, porque ele não teria como sair. Mesmo sabendo de muitas estórias em que os personagens entram em situações impossíveis de um final vitorioso e ainda assim conseguem, eu hoje, na luz do meu candeeiro de maturidade, sei que dali ele não conseguiu sair. O precipício, inóspito e algoz, o salvou. O salvou de uma morte excruciante. E na situação mais difícil da sua vida, ele vê um morango. 

Quem caiu no precipício não foi uma menina, foi um homem. A menina nunca poderia entender, mas o homem, talvez sim. Foi um homem, com um senso de esperança e de alegria tão bem plantados dentro do seu coração que ele, à beira da morte, não só viu o morango, como conseguiu pegá-lo na mão e colocá-lo na boca. E saboreou! Achou bom um único morango no último lugar provável da sua vida. Sim, ele não escapou. Pode até ter ficado pendurado algum tempo, mas inevitavelmente, ele caiu. Mas caiu consolado, pois a frase após a constatação de que o morango estava delicioso foi: “Sorriu então, de que na vida houvesse coisas tão belas”. 

Pode ser que a queda no precipício não tenha sido tão abrupta quanto o que pareceu. Pode ser que a queda tenha sido uma doença e o morango aquela alegria final que alguns costumam apresentar pouco antes de partir. E ainda assim ele sorriu. Sorriu, pois manteve, no dia mais difícil de sua vida, a gratidão pura e simples pela vida. Mesmo sabendo que ia morrer, não abandonou a luz dos dias e a gratidão pelo que lhe era dado. Isso a menina não conseguiu entender. Não tive este lampejo. Hoje entendo e me espelho. Hoje as coisas fazem mais sentido. Sorrio então, de que na vida haja quem escreva estórias tão belas.

Ilustração original de Bianca da edição de 1987, Editora Paulinas.

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