Lituânia busca aprofundar laços com o Brasil em meio a novas oportunidades comerciais e geopolíticas

Vice-ministro das Relações Exteriores da Lituânia destaca a importância estratégica do Brasil, o potencial do acordo Mercosul-União Europeia e as perspectivas para o fortalecimento da cooperação bilateral.
A República da Lituânia é uma nação báltica com cerca de 2,9 milhões de habitantes e uma das economias mais dinâmicas da União Europeia orientadas pela inovação. Com um PIB nominal de aproximadamente 84 bilhões de euros, o país desenvolveu forte reputação em setores de alto valor agregado, como tecnologia laser, biotecnologia, ciências da vida, fintechs e cibersegurança. A Lituânia é amplamente reconhecida como líder mundial em pesquisa e fabricação de lasers, fornecendo tecnologias avançadas para universidades, centros de pesquisa e indústrias em todo o mundo.
Brasil e Lituânia mantêm uma longa relação diplomática. O Brasil reconheceu a Lituânia de jure em 1921, as relações diplomáticas formais foram estabelecidas em 1931 e restabelecidas em novembro de 1991, após a restauração da independência lituana. Nos últimos anos, a cooperação econômica e política se intensificou, especialmente nas áreas de comércio, inovação e investimentos. A Lituânia reforçou sua presença no Brasil com a abertura do Consulado-Geral em São Paulo, em 2013.
Além disso, o Brasil é o principal parceiro comercial da Lituânia na América Latina. Em meio ao fortalecimento dos intercâmbios econômicos e do diálogo entre Europa e América do Sul, a Lituânia vê novas oportunidades para ampliar sua presença no mercado brasileiro, especialmente diante do acordo Mercosul-União Europeia.
Em cumprimento de compromissos no Brasil, o vice-ministro das Relações Exteriores da Lituânia, Vidmantas Verbickas, discute os objetivos de sua visita ao país, avalia as perspectivas criadas pelo acordo Mercosul-UE e explica como os países podem expandir a cooperação em áreas que vão do comércio e investimento à diplomacia e relações internacionais.
* Em linhas gerais, qual é o objetivo de sua visita ao Brasil? Como o senhor vê a importância do país para a política externa da Lituânia?
O objetivo da minha visita é fortalecer as relações bilaterais entre Brasil e Lituânia, estabelecidas em 1931 e interrompidas durante a ocupação soviética. Hoje, a Lituânia é um Estado independente, membro da ONU, da União Europeia, da OTAN e da OCDE, e busca expandir seus laços políticos, econômicos e culturais em todos os continentes.
A América Latina e o Caribe tornaram-se cada vez mais estratégicos para a Lituânia. Uma cooperação mais próxima oferece oportunidades para fortalecer a democracia, expandir o comércio e ampliar o engajamento multilateral. A preservação da democracia, dos valores europeus e o apoio contínuo à Ucrânia permanecem centrais em nosso diálogo político. Também consideramos fundamental ampliar a cooperação em segurança, aplicação da lei, combate ao crime organizado e inteligência.
O Brasil é um dos mais importantes parceiros econômicos da América Latina. Fortalecer as relações bilaterais é uma prioridade do governo lituano. Tenho satisfação em anunciar que planejamos abrir ainda este ano uma Embaixada da Lituânia no Brasil, o que ampliará significativamente nossa presença e visibilidade no país.
* Como o senhor avalia os impactos do acordo Mercosul-União Europeia?
O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia será um importante catalisador para aprofundar as relações comerciais. O Brasil já é o principal parceiro econômico da Lituânia na América Latina. Em 2025, as exportações lituanas para os países do Mercosul cresceram 40%, enquanto as importações aumentaram 44%.
O acordo eliminará gradualmente tarifas sobre aproximadamente 90% dos bens comercializados entre os dois blocos. Para o Brasil, isso significa melhor acesso ao mercado europeu para produtos agrícolas como carne bovina, café, soja, tabaco e óleo de palma, além de matérias-primas e produtos manufaturados.
Por outro lado, exportadores lituanos enfrentam atualmente tarifas elevadas no Mercosul, incluindo até 35% sobre veículos, entre 14% e 20% sobre máquinas e até 18% sobre produtos químicos. A redução dessas barreiras abrirá oportunidades importantes para empresas lituanas, especialmente em áreas de alta tecnologia, como ciências da vida, manufatura avançada e tecnologias laser.
Além da redução tarifária, o acordo ampliará o acesso aos mercados de serviços, às compras governamentais e proporcionará regras mais claras para investidores. Em termos gerais, o pacto modernizará as relações econômicas e inaugurará uma nova etapa de comércio e investimentos entre Brasil e Lituânia.
* Qual a importância do Brasil para a política externa lituana?
O Brasil é a maior economia da América Latina e uma potência global, sendo nosso principal parceiro em todo o Hemisfério Sul. Sua importância atual e futura, especialmente diante do acordo Mercosul-UE, levou sua inclusão na lista de mercados prioritários para exportações lituanas.
Nossos objetivos econômicos são complementares. O Brasil está digitalizando rapidamente seus setores financeiro e tecnológico, áreas nas quais a Lituânia possui forte expertise em TI e fintechs. Também vemos enorme potencial em ciências da vida, combinando o grande setor de saúde brasileiro com a crescente indústria biotecnológica lituana.
Até agora, o comércio bilateral esteve concentrado em setores tradicionais. Nosso objetivo é avançar para áreas de alta tecnologia, incluindo lasers, manufatura avançada e soluções inteligentes para agricultura.
* Existem planos para uma Câmara de Comércio Brasil-Lituânia?
Sim. A Câmara de Comércio Brasil-Lituânia foi oficialmente estabelecida em 12 de março de 2026, em São Paulo. Seu objetivo é fortalecer os laços econômicos, promover comércio, investimentos, parcerias tecnológicas e intercâmbio empresarial.
A iniciativa conta com o apoio da comunidade lituana no Brasil e da LitPro (Profissionais Lituanos na América Latina). O conselho da Câmara reúne empresários e profissionais de destaque descendentes de lituanos, que terão papel importante na ampliação dos vínculos econômicos entre os dois países.
* Qual é o atual volume de comércio bilateral e quais os objetivos futuros?
Em 2025, a corrente de comércio bilateral alcançou 90,53 milhões de euros, representando crescimento de 40%. As exportações aumentaram 68%, impulsionadas por um salto de 109% nos produtos de origem lituana, enquanto as importações provenientes do Brasil cresceram 10%.
Com a implementação do acordo Mercosul-União Europeia, ambos os países poderão aprofundar a diversificação do comércio, estimular investimentos, ampliar a cooperação em inovação e fortalecer a participação empresarial nas cadeias globais de valor.
* De que maneira é possível possível projetar seu crescimento?
As tendências são bastante positivas. O crescimento está sendo impulsionado por parcerias empresariais bem-sucedidas, especialmente em setores de alta tecnologia.
Um exemplo é a cooperação entre a empresa lituana Novian Pro e a Comissão de Implantação do Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro. A empresa desenvolveu um sistema avançado para otimizar escalas e períodos de descanso de controladores de tráfego aéreo.
Outro exemplo é o memorando firmado entre a Axioma Metering, a brasileira BR M2M e a Sabesp para fornecer 600 mil hidrômetros ultrassônicos inteligentes. O projeto poderá superar 4 milhões de unidades até 2029, tornando-se uma das maiores implantações do tipo no mundo.
* Existe potencial para ampliar a cooperação no setor de lasers?
A Lituânia é reconhecida globalmente como um dos principais países em tecnologias laser científicas. Cerca de 90% da produção é exportada para mais de 90 países e 96 das 100 melhores universidades do mundo utilizam tecnologias laser e fotônicas desenvolvidas na Lituânia.
Atualmente, as exportações para o Brasil concentram-se em universidades e centros de pesquisa. No entanto, vemos potencial para expansão em aplicações industriais e manufatura de alto valor agregado.
* Como os laços culturais podem ser fortalecidos?
Apesar da distância geográfica, temos muito em comum. Podemos ampliar os intercâmbios entre artistas, músicos, estudantes e pesquisadores, além de criar mais oportunidades para aprendizado dos idiomas português e lituano.
É fundamental aumentar o conhecimento mútuo sobre história, tradições, arte, educação, gastronomia e turismo. O Festival LABAS, realizado anualmente pelo Consulado-Geral da Lituânia em São Paulo, tem exatamente esse objetivo. Em 2026, sua sétima edição ocorrerá nos dias 11 e 12 de julho no Museu da Imigração de São Paulo.
* De que forma a Lituânia pode contribuir para o desenvolvimento do Brasil?
Além das oportunidades já mencionadas nos setores de tecnologia da informação e lasers, a energia é uma área estratégica.
Um exemplo é a KN Energies, uma das principais operadoras de terminais de gás natural liquefeito da Europa, responsável pela operação do Terminal de GNL do Açu desde 2021.
Outra área promissora é o hidrogênio verde. Após a adoção do marco regulatório brasileiro em 2024, o país tornou-se destino relevante para investimentos nessa área. Empresas lituanas participam de um projeto de parque de energia verde de 10,8 GW no Piauí, considerado um dos maiores projetos globais de hidrogênio renovável.
* O senhor tem experiência com comunidades lituanas nos Estados Unidos. O que espera da comunidade lituana no Brasil?
Minha experiência em Chicago mostrou como uma diáspora ativa pode ser um ativo cultural e econômico importante. Vejo uma oportunidade semelhante em São Paulo.
Em 1º de setembro de 2025 havia 5.196 cidadãos lituanos registrados no Brasil, mas estima-se que mais de 300 mil pessoas de ascendência lituana vivam no país.
Minha prioridade é compreender melhor as necessidades dessa comunidade, fortalecer os vínculos acadêmicos e profissionais, apoiar a infraestrutura cultural existente e ampliar oportunidades de estudo e estágio na Lituânia. Também queremos incentivar a reconexão das novas gerações com suas raízes e fortalecer os laços entre a diáspora e as instituições lituanas.
A política da Lituânia para a diáspora busca criar condições favoráveis tanto para o engajamento quanto para o eventual retorno ao país, contribuindo para uma Lituânia moderna, aberta e próspera.
Autor:
Nicolas Tamasauskas