Estagflação à vista: o mundo diante de um ciclo econômico mais complexo e restritivo

O mundo não está apenas desacelerando. Está mudando de regime. E a diferença entre essas duas leituras é enorme, porque os regimes não se resolvem apenas com o próximo ciclo de corte de juros e ajustes pontuais.
A estagflação voltou ao centro do debate global. Mas quem a trata apenas como uma reminiscência dos anos 1970 está olhando para o retrovisor. O que está se formando agora tem outra natureza: mais lenta, mais profunda e mais estrutural.
Por anos, o comércio global funcionou com uma lógica eficiente: cada país produzia aquilo em que era mais competitivo, os custos caíam, a eficiência subia e a inflação seguia seus ciclos. Isso não era apenas teoria econômica. Era a engrenagem real que ajudou a sustentar décadas de preços mais baixos, mesmo em um ambiente de forte expansão monetária.
Essa engrenagem está a caminho de se romper.
Não de uma vez, nem por uma única causa. Mas por um acúmulo de fraturas: conflitos geopolíticos que redesenham rotas e relações comerciais, uma transição energética necessária, porém cara, e uma onda de protecionismo que transforma decisões políticas em custos de produção. Cada empresa que troca um fornecedor global por um regional, seja por pressão regulatória, risco logístico ou orientação estratégica, paga um preço por isso. E esse custo, cedo ou tarde, afeta a cadeia inteira.
Isso não é apenas um choque. É uma reconfiguração.
Ao mesmo tempo, o espaço de resposta dos governos está mais estreito do que em ciclos anteriores. Depois de mais de uma década de juros baixos e estímulos fiscais, crise do subprime e tudo isso acelerado pela pandemia, boa parte das principais economias avançadas entrou nesse novo ambiente com níveis elevados de endividamento. Segundo estimativas do FMI, a dívida bruta do governo geral gira em torno de 123% a 125% do PIB nos Estados Unidos, ultrapassa 230% no Japão, fica próxima de 115% na França, entre 135% e 138% na Itália e ao redor de 100% no Reino Unido. Na zona do euro, dados da Eurostat apontam um nível agregado de aproximadamente 88% do PIB ao final de 2025. O problema, no entanto, não é apenas o patamar, é a trajetória.
Esse endividamento encontra agora um agravante que poucos colocam na conta com o peso que merece: a remilitarização global. Os gastos militares globais avançam pelo 11º ano consecutivo, não como resposta a conflitos isolados, mas a um cenário de instabilidade estrutural, com múltiplos focos de tensão ativos e risco crescente de escalada entre potências. Diferentemente de investimentos em infraestrutura ou tecnologia, gastos militares têm multiplicadores de produtividade baixos: consomem orçamentos já pressionados, desviam capital de setores mais eficientes e criam pressão inflacionária sem contrapartida equivalente à oferta. Em economias endividadas, cada bilhão destinado à defesa é um bilhão a menos disponível para equilibrar contas ou estimular crescimento. O resultado não é neutro, é mais pressão fiscal sobre um sistema que já não tem folga.
Um ponto central é: governos, empresas e famílias estão mais sensíveis ao custo de capital. Quando os juros sobem, o sistema inteiro range. E os bancos centrais ficam presos em um dilema sem saída limpa: cortar juros pode reacender a inflação; mantê-los elevados aprofunda a desaceleração.
O resultado dessa combinação contraria aquilo que o mundo se acostumou a observar nas últimas décadas: inflação e baixo crescimento coexistindo não como anomalia passageira, mas como possível novo equilíbrio.
Tudo aquilo que dependia de estabilidade como premissa não está acontecendo. Precificação estática vira armadilha. Dependência de um único fornecedor, de uma única moeda ou de uma única rota deixa de ser simplificação operacional e passa a ser risco concentrado. Capital de giro deixa de ser métrica secundária e se torna ativo estratégico.
A história econômica tem poucos episódios de estagflação prolongada, e a estagflação ainda não é uma realidade. Mas, quando esses episódios ocorrem, separam governos, empresas e famílias que se prepararam para a mudança, das que apenas esperaram o ciclo passar. Não porque as primeiras fossem mais sortudas, mas porque interpretaram o momento com mais precisão.
A história econômica tem poucos episódios de estagflação prolongada. Mas, quando eles acontecem, uma coisa é invariável: a maioria só reconhece a mudança de regime depois que ele já custou caro demais.
Autor:
Mário Calfat é Fundador e Vice-Presidente da Buckler Fit.