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Decisão de juros nos EUA: primeira reunião de Kevin Warsh marca início de nova era na política monetária americana

Por Manuela·
Decisão de juros nos EUA: primeira reunião de Kevin Warsh marca início de nova era na política monetária americana

Mercado aposta na manutenção dos juros em cenário de ruptura histórica com a chegada do novo presidente do Federal Reserve

A próxima reunião do Federal Reserve (FED), marcada para os dias 16 e 17 de junho, deve manter a taxa de juros dos Estados Unidos entre 3,50% e 3,75%. No entanto, para Marcelo Cabral, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital, o encontro vai muito além da definição sobre juros e simboliza o início de uma nova fase na condução da política monetária americana.

De acordo com Cabral, a manutenção das taxas já está totalmente incorporada às expectativas dos investidores. “Diante da persistência das pressões inflacionárias e do forte aumento no preço dos combustíveis devido a guerra no Irã, não existe espaço para corte de juros”, afirma.

Segundo o especialista, os últimos indicadores econômicos reforçam esse cenário. A inflação americana continua pressionada, com o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) acumulando alta de 4,2% em 12 meses até maio, enquanto o núcleo da inflação atingiu 2,9% ao ano, o maior nível desde abril de 2023. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho segue aquecido, com a criação de 172 mil empregos em maio, muito acima das expectativas.

Nesse cenário, Cabral avalia que o Federal Reserve não terá margem para flexibilizar sua política monetária no curto prazo. “Ou seja, diante do aumento da inflação e da melhora do mercado de trabalho, a única postura possível para o FED na próxima reunião é manter as taxas no patamar atual e adiar o tão esperado corte de juros para o final do ano ou inicio de 2027”, comenta.

Mas é a estreia de Kevin Warsh na presidência do banco central americano que concentra as maiores atenções do mercado. Para o gestor da Stratton Capital, sua chegada representa uma mudança profunda de paradigma.

“A ascensão de Kevin Warsh à presidência do Federal Reserve marca uma ruptura histórica que pode ter impactos duradouros na política monetária dos Estados Unidos e, por conseguinte, no mercado global. Kevin promete uma ruptura radical com a forma de atuação de Jerome Powell, a quem ele faz duras críticas”, diz.

Cabral destaca que o histórico profissional de Warsh ajuda a explicar sua visão sobre política monetária. Ex-conselheiro econômico da Casa Branca durante o governo George Bush, ex-vice-presidente do Morgan Stanley e ex-economista da Duquesne, o novo presidente do FED possui uma formação fortemente ligada ao setor privado e à escola monetarista clássica de Milton Friedman.

Na avaliação do especialista, é preciso voltar décadas na história para encontrar um dirigente do Federal Reserve com pensamento semelhante. “Para encontrar um presidente do FED com ideias semelhantes a Kevin Warsh, precisaremos recuar pelo menos 30 anos, até a gestão de Alan Greenspan, ou talvez até a década de 1980, quando Paul Wolcker foi o presidente mais ortodoxo, mais duro, e mais rigoroso no combate a inflação na historia do FED”, comenta.

A expectativa, segundo o gestor, é que Warsh implemente um modelo de atuação baseado em prioridade absoluta ao controle da inflação, menor intervenção nos mercados, uso mais restrito do quantitative easing, redução do balanço do FED, abandono do forward guidance e foco exclusivo na disciplina monetária e na credibilidade da instituição.

Caso essa mudança realmente aconteça, os reflexos poderão ser sentidos em todo o sistema financeiro internacional: “Se Kevin de fato implementar essa guinada na forma de atuação do FED, poderemos ter uma política monetária mais restritiva na zona do dólar, com maior volatilidade nos mercados, já que os investidores terão que reagir a dados econômicos em tempo real, sem o ‘colchão protetor’ da sinalização do forward guidance”.

Para Marcelo Cabral, ainda é cedo para afirmar se essa transformação representará o fim definitivo da era de juros estruturalmente baixos iniciada após a crise financeira de 2008. Porém, uma conclusão já parece inevitável: “Ainda é cedo para dizer, mas a reunião da próxima semana marca o início de uma nova era no FED. O mercado terá que se adaptar, um desafio aumenta a incerteza com relação a trajetória futura das taxas de juros na maior economia do mundo”.

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