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Comprar usado realmente ajuda o planeta? Entenda o impacto ambiental do consumo circular

Por Daniella Pimenta·
Comprar usado realmente ajuda o planeta? Entenda o impacto ambiental do consumo circular

Comprar um celular recondicionado, trocar o shopping pelo brechó ou investir em móveis e eletrodomésticos seminovos já não é apenas uma forma de economizar. Em meio ao avanço das mudanças climáticas e à pressão sobre recursos naturais, o consumo de itens de segunda mão passa a ser visto também como uma escolha ambiental.

A discussão acompanha uma transformação mais ampla nos hábitos de consumo. Cada vez mais consumidores buscam alternativas que conciliem economia, acesso a produtos de qualidade e redução de impactos ambientais. Nesse cenário, o consumo circular, baseado na reutilização, no reaproveitamento e na ampliação da vida útil dos produtos, ganha espaço como uma das principais alternativas para reduzir desperdícios e diminuir a necessidade de produção de novos itens.

A lógica é direta: quanto mais tempo um produto permanece em uso, menor a demanda por matérias-primas, energia e processos industriais necessários para fabricar novos produtos.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a extração e o processamento de recursos naturais, necessários para a fabricação de produtos diversos, respondem por mais da metade das emissões globais de gases de efeito estufa e por mais de 90% da perda de biodiversidade e do estresse hídrico no planeta.

Segunda mão deixa de ser nicho e se consolida como tendência global

A mudança já aparece no comportamento do consumidor. O mercado global de roupas de segunda mão, por exemplo, deve alcançar US$ 367 bilhões até 2029, segundo relatório da ThredUp em parceria com a GlobalData. 

Esse comportamento já se estende para além da moda. Eletrônicos, móveis, eletrodomésticos e até automóveis entram com mais força em circuitos de revenda, recondicionamento e reaproveitamento.

Marketplaces, plataformas de leilões online e grandes varejistas passaram a estruturar operações de recompra, revenda e logística reversa para recolocar produtos no mercado. “Existe uma mudança cultural importante em curso. O consumidor percebeu que sustentabilidade e consumo inteligente podem caminhar juntos. Produtos seminovos, recondicionados ou vindos de desativações deixaram de ser vistos como segunda opção e passaram a representar acesso a itens de qualidade com menor impacto ambiental e melhor custo-benefício”, afirma Thiago da Mata, CEO da plataforma Kwara.

A empresa, especializada na recomercialização de ativos, registrou entre 2025 e 2026 um aumento estimado de 105% na procura por itens seminovos e recondicionados. A categoria com maior crescimento foi a de móveis, com destaque também para eletrônicos e eletrodomésticos.

Em termos de impacto ambiental, a Kwara estima que o volume de itens revendidos no período contribuiu para evitar a emissão de aproximadamente 7,5 milhões de kg de CO₂ equivalente e reduziu cerca de 1.350 toneladas de resíduos eletrônicos e materiais que poderiam ter sido descartados prematuramente. “Em outras palavras, este é o impacto de retirar da rua 1.600 carros a combustão por um ano”, destaca Thiago da Mata.

Do varejo ao leilão: produtos ganham nova vida no circuito circular

Parte desse movimento vem de itens que retornam ao varejo após trocas, devoluções ou pequenas avarias estéticas. Nesses casos, os produtos deixam de ser comercializados como novos, mas seguem plenamente funcionais.

Geladeiras com pequenos riscos, notebooks fora da embalagem original e móveis de mostruário são exemplos comuns desse fluxo.

Outro segmento em expansão é o de desativação de hotéis, apartamentos decorados e imóveis-modelo. Móveis, eletrodomésticos e itens de decoração de alto padrão, muitas vezes em excelente estado, são revendidos por valores significativamente menores do que os praticados no varejo tradicional, evitando descarte ou armazenamento sem uso e ampliando o ciclo de vida dos produtos.

O impacto ambiental do descarte precoce

Além da economia para o consumidor, o reaproveitamento ajuda a reduzir o descarte precoce de produtos ainda funcionais. O impacto é especialmente relevante em categorias como eletrônicos. 

Os resultados de um estudo da Fraunhofer Institute indicam que a reutilização e o recondicionamento de eletrônicos podem reduzir entre 18% e 37% das emissões de gases de efeito estufa, dependendo do dispositivo. No caso dos smartphones, a economia chega a cerca de 37%, o equivalente a aproximadamente 34,7 kg de CO₂ por unidade, reforçando o impacto ambiental positivo da ampliação da vida útil dos produtos. Segundo a ONU, em todo o mundo, a geração anual de lixo eletrônico está aumentando em 2,6 milhões de toneladas por ano, e deverá atingir 82 milhões de toneladas até 2030.

A lógica do consumo circular tenta justamente reduzir esse desperdício, prolongando a vida útil dos produtos e diminuindo a necessidade de fabricação de novos itens.

“Estamos falando de uma mudança estrutural. Em setores como eletrônicos, o impacto ambiental não está só no descarte, mas em toda a cadeia de produção. Quando você estende o ciclo de vida de um produto, seja por revenda, recondicionamento ou reuso, você adia a necessidade de nova extração de recursos e reduz pressão sobre uma cadeia altamente intensiva em energia e matéria-prima. O que antes era visto como ‘uso secundário’ hoje começa a ser entendido como eficiência econômica e ambiental ao mesmo tempo”, afirma da Mata.

O consumo de segunda mão também muda a forma como o consumidor enxerga o conceito de “novo”. Em vez de estar associado apenas a produtos lacrados, o item seminovo passa a ser visto como alternativa racional, combinando acesso, economia e menor impacto ambiental.

A tendência acompanha uma mudança mais ampla de comportamento: sai a lógica do descarte rápido e entra a valorização de durabilidade, reaproveitamento e uso prolongado dos produtos.

Como comprar itens usados com segurança

Especialistas recomendam alguns cuidados antes de comprar produtos usados, recondicionados ou vindos de logística reversa. Verificar a procedência, pesquisar a reputação da plataforma e conferir garantias disponíveis estão entre os principais pontos de atenção.

“Em itens de maior valor, como eletrônicos e eletrodomésticos, também é importante observar descrições detalhadas sobre o estado do produto, entre outras informações. E, caso a compra seja feita online, pesquise bem (recursos como Reclame Aqui podem ajudar muito nesse caso) e sempre opte por plataformas e sites confiáveis, com boa reputação”, afirma o CEO da Kwara.

À medida que a economia circular ganha espaço, hábitos cotidianos como comprar um item usado em vez de um novo passam a ter um papel cada vez mais relevante na redução do desperdício e no uso mais eficiente dos recursos. Nesse contexto, escolhas de consumo aparentemente simples começam a integrar uma transformação mais ampla na forma como produtos são produzidos, utilizados e reaproveitados.

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