Brasil envelhece mais rápido que ficou rico: o desafio da próxima década
Enquanto países desenvolvidos tiveram 100 anos para se preparar, o Brasil comprime o mesmo processo em apenas 19 anos. As consequências vão muito além das contas públicas
A matemática é implacável. Na França, demorou mais de 100 anos para que a proporção de pessoas idosas (com 65 anos ou mais) passasse de 7 por cento para 14 por cento da população. No Brasil, a transição demográfica que levou um século na Europa vai se consumar em apenas 19 anos.
O Brasil atingiu 7 por cento de idosos em 2012 e deve atingir 14 por cento em 2031. Nesse intervalo, o país estará refundando seu modelo de negócio, suas políticas públicas, suas estruturas de saúde e seu sistema previdenciário. Tudo simultaneamente. Sem o tempo de respiro que as nações desenvolvidas tiveram.
O fenômeno, batizado por demógrafos como “envelhecimento acelerado”, coloca o Brasil em companhia incômoda. O Japão atingiu a mesma progressão em apenas 23 anos (7 por cento em 1971 para 14 por cento em 1994), e a Coreia do Sul levará 37 anos. Mas enquanto Japão e Coreia do Sul eram já economias maduras e ricas quando começaram a envelhecer, o Brasil passa por essa transição em um ritmo acelerado sem ter completado o desenvolvimento econômico e social que poderia mitigar seus impactos negativos.
“É envelhecer primeiro e enriquecer depois”, resume o desafio o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, referência em estudos de população no Brasil.
Os números que não mentem
A expectativa de vida da população brasileira chegou aos 76,6 anos em 2024, o maior valor já registrado desde 1940. Para as mulheres, a projeção é de 79,9 anos. Para os homens, 73,3 anos. A expectativa de vida deve chegar a 77,8 anos em 2030 e 79,7 anos em 2040, aproximando o país de índices hoje vistos em nações desenvolvidas.
Mas longevidade crescente combinada com fecundidade em queda cria uma conta implacável. De 2000 a 2023, a proporção de idosos (pessoas com 60 anos ou mais) na população brasileira quase duplicou, subindo de 8,7 por cento para 15,6 por cento. Em números absolutos, o total de idosos passou de 15,2 milhões para 33,0 milhões.
O futuro reserva números ainda mais explosivos. Em 2070, cerca de 37,8 por cento dos habitantes do país serão idosos, o que corresponderá a 75,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais de idade.
Enquanto isso, a base piramidal que sustenta os idosos encolhe. Hoje, para cada 100 integrantes da População Economicamente Ativa (PEA), há 21 idosos em situação de dependência por aposentadoria. Aí mora o problema: em 2060, serão 63 para cada 100.
O impacto nas contas do governo é vertiginoso. De acordo com o Tesouro Nacional, em 2024, o déficit da Previdência era de 2,5 por cento do PIB e, se nada for feito, chegará a mais de 8 por cento em 2080 e mais de 10 por cento em 2100.
O que muda nas empresas
O envelhecimento populacional não é apenas um problema fiscal. É um fenômeno que redesenha o mercado de trabalho por baixo.
O crescimento de idosos ocupados sem vínculo de trabalho aumentou em 46,5 por cento de 2012 para 2024. Vários fatores justificam o fenômeno, como o retorno ao mercado de trabalho devido a aposentadoria de valor insuficiente, etarismo no mercado formal e pejotização dos trabalhos.
Isso significa que o “trabalhador sênior” está deixando de ser uma exceção para virar regra. Pessoas acima de 60 anos que estão retornando ao mercado ou que nunca completamente saíram dele, nem sempre por escolha, mas por necessidade financeira.
Para as empresas, a implicação é dupla. Por um lado, enfrentarão dificuldade para substituir profissionais sênior que saem. A transmissão de conhecimento, a memória institucional, o relacionamento com clientes de longo prazo: tudo isso encarnado em pessoas com mais de 50 anos sairá pelas portas se não houver uma estratégia deliberada de retenção.
Por outro lado, o mercado consumidor envelhecido exigirá produtos e serviços pensados para essa demografia. Desde o design da interface de aplicativos até a embalagem de medicamentos, passando pela experiência do usuário nos caixas de supermercado ou na navegação de plataformas digitais.
A dependência invisível
Um dado pouco divulgado tira do mapa qualquer romantismo em torno do envelhecimento: se não existissem os benefícios previdenciários, 35,2 por cento dos idosos estariam na extrema pobreza, e 52,5 por cento na pobreza, em vez dos atuais 1,9 por cento e 8,3 por cento, respectivamente.
A previdência social virou, de fato, a base de sustentação de mais de metade da população idosa brasileira. Quando essa base se desgasta, não é só o sistema público que sofre. É a família, a vizinhança, o acesso a serviços e bens básicos.
Uma pessoa com 60 anos em 2024 pode viver, em média, mais 22,6 anos. Para homens, a projeção é de 20,8 anos. Para mulheres, o número sobe para 24,2 anos. Isso significa que alguém que se aposenta aos 62 pode viver mais 20 anos como dependente de um benefício que não foi indexado para durar tanto tempo.
A janela que se fecha
Demógrafos são unânimes: não há reversão desse quadro. Quanto mais rápido é a queda da taxa de fecundidade total, mais rápido é o processo de envelhecimento populacional. E a fecundidade brasileira está em 1,62 filhos por mulher, abaixo do nível de reposição de 2,1 filhos.
O Brasil tem uma década, talvez menos, para redesenhar suas políticas de trabalho, saúde, previdência e cuidado de longa duração. Países que começaram esse caminho há 50 anos ainda enfrentam crise fiscal. O Brasil, acelerado, enfrenta a crise sem ter construído a infraestrutura.
A questão não é mais se vai acontecer. É o que faremos até lá.
- 1940 a 2024: expectativa de vida cresceu de 45,5 anos para 76,6 anos
- 2024: expectativa de vida é 76,6 anos; mulheres vivem 79,9 anos, homens 73,3 anos
- 2031: Brasil dobrará a proporção de idosos de 7 por cento para 14 por cento em 19 anos
- 2023: 33 milhões de idosos (15,6 por cento da população)
- 2070: 75,3 milhões de idosos (37,8 por cento da população)
- Razão de dependência: de 21 idosos para cada 100 em idade ativa hoje para 63 em 2060
- Déficit previdenciário: 2,5 por cento do PIB em 2024; projeção de 10 por cento em 2100
- Sem benefícios: 35,2 por cento dos idosos estariam na extrema pobreza
Tábuas de Mortalidade 2024 (IBGE) Projeções da População do Brasil 2024 (IBGE) Organização Mundial da Saúde (OMS) Tesouro Nacional Instituto de Longevidade Pesquisas de José Eustáquio Diniz Alves (demógrafo) Agência Brasil / Agência de Notícias IBGE
Willians Fiori
Especialista em Mercado de Longevidade desde 2003
Professor Pós-Graduação em Geriatria, Gerontologia e Mercados — Hospital Israelita Albert Einstein
Professor Convidado: FIA, UFRJ, PUC-SP e INSPER, FAAP
Autor dos Livros: Diversa-Idade, Brasil 2060,O cérebro que podemos proteger
Citado no livro Longevity Hub do MIT (Massachusetts Institute of Technology) como principal especialista brasileiro no tema
Premiado pela ONU Latin America e detentor do Selo Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo
Premiado pelo Premio Bstory Longevidade
Membro do conselho Europeu de Silver Economy