Este é um trecho original publicado em Exame.com.
A notícia da compra do Tasy pela Bionexo, por 940 milhões de reais, é daquelas que merecem ser lidas com atenção, porque mostram, na prática, onde o futuro da saúde está sendo desenhado. De um lado, uma empresa brasileira que passou 25 anos conectando hospitais a fornecedores. Do outro, um software clínico que organiza prontuários de mais de 2.000 instituições na América Latina. Juntas, elas passam a operar com 11.000 clientes, 1,2 milhão de usuários ativos e movimentam 45 bilhões de reais por ano. Mas o número que realmente importa nessa história não está no contrato. Está no datalake.
E aqui entra um ponto que considero central: dados, sem nenhuma dúvida, são o ativo mais valioso desta era da inteligência artificial. A própria CEO da Bionexo, Solange Plebani, foi direta ao dizer que a IA precisa de informação para existir, e que a empresa virou um repositório gigantesco de 25 anos de dados do setor. Não é exagero. Quem tiver volume, profundidade e qualidade de dados clínicos vai liderar a próxima geração de medicina assistida por algoritmos. Os outros vão correr atrás.
O problema que essa fusão tenta resolver é antigo e dolorosamente familiar para qualquer brasileiro. A saúde não conversa com a saúde. Cada hospital tem seu sistema, cada operadora tem suas regras, cada clínica guarda seu pedaço da história do paciente. O resultado é repetição de exames, glosas que travam o caixa dos hospitais, diagnósticos atrasados e uma jornada que cansa quem cuida e quem é cuidado. Integrar esses pedaços não é luxo tecnológico, é condição básica para que a IA aplicada à saúde entregue o que promete.
No livro Diversa Idade, dediquei um capítulo inteiro às novas forças emergentes na saúde, e uma delas é exatamente essa: a análise preditiva de dados conectando todos os ecossistemas do setor. A ideia é simples de explicar e complexa de executar. Quando o estoque do hospital, o prontuário do paciente, o histórico do convênio e os padrões de milhões de atendimentos passam a se comunicar em tempo real, deixamos de reagir à doença e começamos a antecipá-la. Prever a falta de um medicamento antes que ela aconteça, identificar um risco clínico antes que vire emergência, ajustar protocolos com base no que realmente funcionou em pacientes parecidos. É essa a fronteira que se abre.
A Bionexo Tasy, do jeito que foi desenhada, parece estar exatamente nesse caminho. Resta acompanhar se a integração vai entregar na prática o que o tamanho da base de dados promete no papel. Se entregar, muda o jogo da saúde na América Latina.
Willians Fiori
Especialista em Mercado de Longevidade desde 2003
Professor Pós-Graduação em Geriatria, Gerontologia e Mercados — Hospital Israelita Albert Einstein
Professor Convidado: FIA, UFRJ, PUC-SP e INSPER, FAAP
Autor dos Livros: Diversa-Idade, Brasil 2060,O cérebro que podemos proteger
Citado no livro Longevity Hub do MIT (Massachusetts Institute of Technology) como principal especialista brasileiro no tema
Premiado pela ONU Latin America e detentor do Selo Direitos Humanos da Prefeitura de São PauloPremiado pelo Premio Bstory LongevidadeMembro do conselho Europeu de Silver Economy

