Projeto idealizado por Ana Fernandes oferece acolhimento e orientação a pais que enfrentam o luto gestacional e neonatal, lacuna ainda presente na assistência à saúde
A ausência de suporte estruturado para famílias que enfrentam perdas gestacionais e neonatais ainda representa um desafio no Brasil. Nesse contexto, iniciativas independentes têm surgido como alternativa de acolhimento emocional. Uma delas é o projeto Gerado para a Eternidade, criado por Ana Fernandes após a morte do filho, Benício, diagnosticado ainda na gestação com uma condição rara considerada incompatível com a vida.
Durante o pré-natal, Ana recebeu o diagnóstico de agenesia renal bilateral, condição em que os rins não se desenvolvem. Diante do quadro, ela e o marido decidiram buscar alternativas fora do país e se mudaram para os Estados Unidos em busca de tratamento especializado. O bebê nasceu, permaneceu em acompanhamento por 63 dias, mas não resistiu.
A experiência deu origem ao projeto, que hoje atua no acolhimento de famílias que vivenciam perdas gestacionais, neonatais ou na primeira infância. A iniciativa oferece suporte emocional, orientação e compartilhamento de experiências, alcançando famílias em todos os estados brasileiros.
Dados do Ministério da Saúde indicam que o Brasil registra cerca de 38 mil mortes de bebês por ano antes de completar 12 meses de vida, com uma taxa de 12,6 óbitos por mil nascidos vivos. Os números não incluem perdas gestacionais nem mortes neonatais precoces, o que amplia a dimensão do problema.
Estudos acadêmicos apontam que a falta de suporte estruturado pode agravar os impactos emocionais dessas perdas. Pesquisa publicada pela Revista de Medicina de Ribeirão Preto (USP) identificou que 15,4% dos pais que vivenciaram perdas gestacionais ou neonatais relataram pensamentos suicidas, evidenciando a necessidade de acompanhamento psicológico.
Em 2025, foi instituída no país a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, que recomenda atendimento psicológico após a alta hospitalar. Especialistas, no entanto, avaliam que a implementação ainda enfrenta limitações, principalmente pela escassez de profissionais capacitados.
No caso da agenesia renal bilateral, estima-se que cerca de 700 bebês sejam diagnosticados anualmente no Brasil. Famílias que recebem esse diagnóstico, em geral, enfrentam o processo sem acesso a redes de apoio ou orientação especializada.
O projeto Gerado para a Eternidade foi estruturado a partir da produção de conteúdos voltados ao acolhimento emocional. A iniciativa inclui dois livros Gerado para a Eternidade e Abraçados pela Eternidade além de três e-books distribuídos gratuitamente pelas redes sociais.
Os materiais já alcançaram famílias em todos os estados brasileiros e também registram acessos no exterior. Segundo a idealizadora, a iniciativa contribuiu para a formação de uma rede de apoio entre mães que compartilham experiências e oferecem suporte mútuo.
Há ainda planos de expansão internacional, com foco inicial nos Estados Unidos. A proposta prevê o desenvolvimento de uma plataforma digital para conexão entre famílias e oferta de suporte emocional com profissionais especializados.
Ana Fernandes atua atualmente como escritora, palestrante e responsável pelo projeto, com foco na ampliação do acesso ao acolhimento emocional para famílias em situação de luto.
Os materiais gratuitos estão disponíveis online, enquanto os livros são comercializados por meio do site da iniciativa.

