Me lembro, quando criança, de ter lido uma crônica de Rubem Braga que ficou clara nas minhas lembranças. Ele falava sobre seu ideal de escrita: uma história que deveria ser tão engraçada que pudesse mudar o humor das pessoas naquele dia. E contava como isso aconteceria com cada personagem e como o dia deles seria tão melhor quando lessem sua história no jornal.
Acho que isso é o sonho de todo escritor, encontrar o caminho secreto que puncione, de forma indolor e profunda, a veia do leitor para que ele possa entender, sentir e se admirar com a história que quer contar. “Poxa, foi você quem escreveu aquilo?? Rapaz, eu gostei tanto, foi tão importante na minha vida ter visto as coisas por aquele olhar.” Ou então, “nossa! eu conseguia me identificar com aquela palavra sobre tal coisa que eu sentia mas não sabia explicar bem o que era.” E mesmo “ah, eu ri tanto daquilo que por alguns minutos nem lembrei que estava passando por um dia difícil.” Acho que isso, vindo de um leitor honesto, vale mais que um prêmio literário. O caminho de quem escreve é delicado, quem escreve será lido e por isso deve haver um esforço de sua parte para que seu escrito seja interessante sobretudo aos olhos de quem lê. A escrita não pode ficar restrita apenas aos desabafos íntimos de quem escreve, guardadas numa gaveta. Ela normalmente intenta chegar em algum lugar.
Porém, por muitos anos, eu escrevi para mim. Escrevi porque necessitava. Necessitei das linhas para amarrar nelas as palavras de isca e pescar dentro de mim aquilo que minha razão não alcançava. Os fatos, os dias, os acontecimentos, aborrecimentos e tristezas aconteciam todos dentro de um barco. E meu coração eu havia jogado na água. Para saber o que se passava por lá, precisei pescar. Só eu sei das dores do vazio do barco sem pista do que acontecia lá embaixo. Mas as linhas nunca me traíram e eu sempre consegui que algum peixinho mordesse meu anzol . O sentimento pescado, agora em minhas mãos, me olhava e eu olhava para ele. Ambos procurando reconhecer aquele estranho que o encarava. Quem é você? O que quer de mim? O que faço contigo?
Este tipo de escrita é importante e me salvou. Hoje já moramos todos na praia: eu, minha razão, meus sentimentos e meu coração, que hoje já voltou pro seu lugar. Vez por outra ainda teima em uns mergulhos, assustado, mas já não fica mais tanto tempo na água. Hoje eu escrevo, também porque necessito. Mas a necessidade é outra. Escrevo porque penso no mundo e porque de mim brotam coisas. Penso na vida, na minha vida, nas pessoas, nas estórias, na maneira como as estórias acontecem e acho que as estórias precisam continuar existindo e precisam ser contadas. Escrevo porque me lembro e escrevo para me lembrar.
Hoje, cansada, no fim do dia, olhava imagens rolando a tela do celular. Coleciono coisas que me interessam, que acho bonitas, que me fazem rir ou que possam ter alguma serventia. Entre elas, acompanho páginas de arquitetura. E me apareceu uma fotografia daquelas de casas que talvez só existam em fotografias mesmo ou pertençam a pessoas que eu ainda não conheci. Casa num lugar de clima ameno, daqueles que a gente ama quando o sol quente entra todinho pela casa. Uma sala ampla, janelas imensas de vidro com montantes, travessas e aquele banco largo embutido na base que tem sempre um assento forrado, muitas almofadas e uma mantinha de algodão cru. Uma vista lindíssima para o lago. Parede branca e madeira clara. Vez por outra uma porta azul que a gente tem certeza que na loja de tinta não vende daquele tom. Ao lado do banco uma mesinha, um café que se sabe quente pela leve fumacinha que sobrevoa a xícara e um livro aberto. E, claro, a deliciosa luz amarela que entra radiosa pela janela como um manto de paz e tranquilidade.
Nesta hora lembrei da crônica de Rubem Braga. Hoje minha vida já não é mais a que eu tinha quando criança e escrever uma história muito engraçada parece até interessante. Mas escrever uma história que me transportasse para um lugar desse seria algo muito mais emocionante que a trilogia extendida do Senhor dos Anéis. Tá, a gente sabe que estou exagerando, falei só pra aumentar o drama. Hoje minha vida é cheia de coisas, de horários, são três filhos com três naturezas diferentes, marido, trabalho, religião, mercado, casa, gato, cachorro e os etcéteras e etcéteras dos dias. Hoje meu ideal seria escrever uma estória que fosse como uma pousada: lendo, eu iria pra lá, para exclusivamente ficar lá naquele banco, sem nem pensar em botar os pés na rua. Apenas ficaria ali sentada por uns dois ou três dias inteiros, tomando café com a mantinha de algodão sobre as pernas, escrevendo e sentindo o solzinho no rosto. Não dá nem pra imaginar que num banco daqueles alguém possa ter algum problema nesta vida.
Não haveria problema, nem zuada, nem correria, nem sujeira pela casa, nem filho gritando, cachorro latindo, mercado, feira, posto de gasolina. Mas também sem as mãozinhas quentes das crianças de manhã, nem o cheiro bom da minha casa quando acordo, o beijo do marido no café, o movimento da cidade, os rostos conhecidos, as pequenas alegrias por tantas coisas que vivemos no pouco a pouco da vida. E talvez por isso minha estória fosse genial, ao acabar a página eu estaria de volta, vinda de pequenas férias sem nunca ter deixado a casa. E o lugar estaria sempre lá, minha viagem sempre de bilhete comprado, sem fila, sem trânsito, sem perrengue no aeroporto. Um santuário virtual para sempre disponível, escondido na minha estante, entre as páginas de um livro.


