Onde eu gostaria de estar se hoje fosse meu último dia?

Estava aqui inquieta, pois já se passaram três dias desde que parei para conversar com meus próprios pensamentos. Em meio a parada repentina na rotina devido uma formação pedagógica, estou com minhas funções profissionais pausadas, me possibilitando respirar, e conversar comigo mesmo.

A pouco, a biblioteca estava cheia de água da chuva, que entrou pelas janelas. Parei de ouvir a aula de português pra concurso e procurei um rodo para retirar a água. Enquanto puxava, refletia sobre a fugacidade e transitoriedade da vida.

Numa questão de português, que estava estudando, havia uma poesia de Paulo Leminski, que dizia assim: “Esta vida é uma viagem, pena eu estar só de passagem.” E me peguei puxando aquela água e me questionando pra quê? Tudo é tão transitório. Se hoje fosse meu último dia por aqui, onde eu gostaria de estar? O que desejaria está fazendo? Com quem queria está? Senti uma coisa estranha. Um silêncio tranquilo e ao mesmo tempo inquietante. Não havia nenhum lugar, nem alguma coisa que desejasse estar fazendo, e por mais assustador, também não havia ninguém em meus pensamentos, que desejasse para esse momento.

 Senti como se tudo estivesse consumado. Apesar de ter grandes sonhos ainda, mesmo que por vezes embaçados pela neblina da vida, não me via realizando nenhum deles antes de morrer. Afinal, tudo passa. Tudo aparenta uma certa insignificância.

Enquanto escrevo, me encontro!

 E ao mesmo tempo, encontro a resposta para minhas inquietações anteriores. Surpreendentemente, encontro onde e o que gostaria de estar fazendo antes do meu último dia: Escrevendo. A Clarice uma vez falou, “Sou uma mulher que escreve porque, para mim, escrever é como respirar, faço para sobreviver”. É exatamente essa sensação que tenho. A escrita e a leitura sempre me ajudaram a viver e ao sobreviver ao mundo.

É escrevendo que me vejo na essência. Onde os olhos alheios não me importam. Aqui, o barulho da chuva, mesmo me trazendo saudades, não me traz lágrimas. Escrevendo vou retirando as camadas pesadas que me puseram para o ato de existir. Retiro também as tristezas e angústias. Deposito no espaço em branco todos os meus anseios, sem medo de julgamento. Sinto-me como um pássaro a voar sobre as árvores.

Que sorte a minha! Não importa as tempestades que me derrubem durante o voou. Sempre haverá espaços em brancos para me levantar, e me permitir voar outra vez.

Monica Graciete
Monica Gracietehttps://mgcronicandoavida.blogspot.com/
Pedagoga, especialista em Educação Inclusiva e em Arte. Educadora por vocação, cronista por essência. Escrevo crônicas existenciais, educacionais e memorialistas. Meus textos falam de questões educacionais e familiares, dos desafios da maternidade atípica e as ironias do dia a dia. Escrevo, porque a vida não basta e a Literatura é um dos melhores lugares para existir.

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