Ao infinito e além

O sistema pode falhar, mas o amor de uma mãe é o único recurso que não aceita cortes

Terça-feira, 10 de março de 2026

Se eu tivesse que escolher o momento em que virei leoa pela primeira vez, foi quando vi meu filho embaixo do birô da escola, ainda no maternal. Ali, eu soube que não poderia continuar sendo uma gatinha e fazendo “miau”; percebi que o mundo estava rodeado de lobos prontos para devorar meu filhote. E qual mãe, independentemente de suas fragilidades ou do tamanho da ameaça, permite que seu filho seja devorado bem na sua frente?

Naquela manhã, olhei para um “bebê” que sempre achei inquieto, hiperativo, hiperfocado e inteligente. Uma criança com sensibilidade auditiva e rigidez cognitiva que, ao aprender as palavras, compreendia tudo no sentido literal. Eu sabia que o mundo não estaria preparado para suas condições neurológicas. O mundo foi programado para os iguais viverem confortáveis, não para a diversidade. Como uma leoa, tirei meu filhote daquela “mata selvagem”. A caminho de casa, eu já sabia: a vida seria uma eterna batalha por empatia, respeito e equidade.

Precisaria trabalhar dobrado para encaminhá-lo a profissionais especializados, que o sistema público não oferta. Fiz isso sem o apoio da família paterna, que acreditava ser tudo “apenas coisa de criança”. Não me importei com o que pensassem. Todos poderiam desistir dele, menos eu. Jamais!

Cinco anos se passaram. Agora ele está no terceiro ano. Graças a muita luta, consultas, terapias e ao diagnóstico de Autismo e TDAH, hoje ele tem seus direitos garantidos. Em parte, claro, porque nada funciona como deveria na prática.

Hoje, o profissional de apoio adoeceu. E, novamente, a história se repetiu. Um professor insensível não ofereceu outras possibilidades de aprendizagem e preferiu passar a tarde gritando com ele, fazendo-o se sentir culpado por ser quem é. Apenas cobranças sobre alguém que precisava de assistência. Não nadei até aqui para morrer na praia, muito menos para assistir ao afogamento do meu garotinho. Quem quiser, que venha secar o mar.

Montesquieu uma vez disse: “Uma coisa não é justa porque é lei, mas deve ser lei porque é justa”. Agora me diga você: é justo uma criança do espectro ser negligenciada por ser quem ela é? Por quanto tempo a mãe precisará brigar pelo óbvio? Por quanto tempo as crianças neurodivergentes serão ignoradas em suas potencialidades?

Pelo tempo que for necessário, estarei aqui para dizer em alto e bom tom: ele não está sozinho! O sistema pode falhar, mas eu não falharei.

Ao infinito e além!

Monica Graciete
Monica Gracietehttps://mgcronicandoavida.blogspot.com/
Pedagoga, especialista em Educação Inclusiva e em Arte. Educadora por vocação, cronista por essência. Escrevo crônicas existenciais, educacionais e memorialistas. Meus textos falam de questões educacionais e familiares, dos desafios da maternidade atípica e as ironias do dia a dia. Escrevo, porque a vida não basta e a Literatura é um dos melhores lugares para existir.

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