A nova reforma tributária brasileira já é realidade no horizonte das empresas — mas, na prática, a maioria ainda não está pronta para atravessar essa transição. Levantamentos recentes mostram um cenário preocupante: segundo a V360, 72% das empresas de médio e grande porte afirmam não estar preparadas para o novo modelo. Já dados da Fecomércio indicam que até 97% das empresas, no geral, também não se sentem aptas para lidar com as mudanças.
O desafio vai muito além da simples alteração de alíquotas. A criação do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) inaugura um modelo baseado no valor agregado, exigindo maior controle, integração tecnológica e revisão estrutural dos processos internos.
Principais pontos da falta de preparo
Entre os principais problemas identificados estão:
- Foco incorreto: muitas empresas concentram esforços apenas na emissão de notas fiscais, negligenciando o chamado “ingresso fiscal” — recepção, validação e liquidação das notas de fornecedores — etapa essencial para evitar inconsistências e riscos tributários.
- Falta de automação: cerca de 67% das empresas não utilizam ferramentas para validação automática de documentos fiscais, aumentando vulnerabilidades operacionais.
- Riscos à sobrevivência: a não adequação dos sistemas ao IBS e à CBS pode resultar em multas, perda de créditos tributários e até paralisação das atividades, especialmente durante o período de convivência entre o modelo antigo e o novo sistema, que deve durar anos.
- Adaptação lenta: mais de 32% das empresas ainda não iniciaram adequações às novas obrigatoriedades, como as duplicatas escriturais.
O momento exige planejamento estratégico, revisão de processos e investimento em tecnologia. Mais do que cumprir regras, trata-se de garantir sustentabilidade financeira em um ambiente tributário mais complexo e técnico.
Da preocupação à preparação: um exemplo no setor da beleza
Se parte significativa do mercado ainda opera em modo reativo, há empreendedoras que transformaram a reforma em oportunidade de amadurecimento empresarial. É o caso de Yvelline Kyzzie Barbosa, empresária do setor da beleza há mais de sete anos, que atua na venda de produtos, serviços terapêuticos e na gestão estratégica de equipes.

Para ela, a reforma tributária representa um convite à consciência empresarial.
“A reforma traz um chamado importante para que empreendedoras da área da beleza olhem para seus negócios com ainda mais estratégia, alinhando propósito e sustentabilidade financeira. O novo modelo impacta diretamente a formação de preços e as margens, principalmente para quem integra venda de cosméticos com protocolos terapêuticos e experiências personalizadas”, afirma.
No setor da beleza — que une produtos, serviços e experiências — a mudança exige clareza na separação de receitas, revisão da estrutura de custos e análise individual da rentabilidade de cada entrega. Negócios que atuam com terapias capilares, protocolos com ozônio, head spa e venda de cosméticos precisam compreender profundamente seus números para manter competitividade.
Yvelline, que integra a distribuidora LUNNA, autorizada da IA Crono Cosméticos, marca de cosméticos naturais, ecológicos e veganos, afirma que adotou postura de antecipação consciente. O movimento envolve revisão de fornecedores, reavaliação de precificação e fortalecimento da organização financeira.
“Não se trata de agir com medo, mas de utilizar esse momento como oportunidade de evolução. A reforma pode impulsionar uma profissionalização ainda maior, trazendo clareza, transparência e fortalecimento estrutural”, destaca.
Além da atuação empresarial, Yvelline também é terapeuta integrativa e capilar, utilizando biolight energético e protocolos de head spa como ferramentas de cuidado profundo. Seu espaço de atendimento, o EU SOUL, localizado em Cidade Verde, em Parnamirim/RN, é dedicado ao cuidado integral e à valorização da experiência feminina.
Para ela, liderar neste momento significa transformar mudanças externas em evolução interna. “Estou me preparando com estudo e visão ampliada, aprofundando meu entendimento sobre gestão financeira e tributária. Quando propósito e estratégia caminham juntos, o crescimento se torna sustentável e autêntico.”
Enquanto grande parte das empresas ainda corre contra o tempo, exemplos como o de Yvelline demonstram que a reforma tributária, embora desafiadora, pode ser catalisadora de um novo nível de maturidade empresarial. O cenário exige adaptação — mas também abre espaço para negócios mais organizados, resilientes e estrategicamente posicionados para o futuro.
Dicas práticas para enfrentar o despreparo diante da reforma tributária
Diante dos desafios trazidos pela implantação do IBS e da CBS, empresas precisam agir com estratégia e rapidez. Veja orientações objetivas para reduzir riscos e fortalecer a gestão:
1. Corrigir o foco: olhar além da emissão de notas
- Estruture um processo formal de “ingresso fiscal”, com conferência automática e validação das notas de fornecedores.
- Integre os setores fiscal, financeiro e compras para evitar divergências.
- Estabeleça auditorias internas periódicas para garantir conformidade.
2. Investir em automação
- Adote sistemas de gestão (ERP) atualizados e compatíveis com as novas exigências.
- Utilize ferramentas de validação automática de documentos fiscais para reduzir erros manuais.
- Priorize soluções que permitam rastreabilidade e armazenamento seguro de dados.
3. Prevenir riscos de multas e paralisações
- Atualize sistemas para contemplar simultaneamente o modelo atual e o novo regime tributário.
- Realize simulações de impacto do IBS e da CBS na precificação e no fluxo de caixa.
- Capacite a equipe contábil e financeira sobre as mudanças legislativas.
4. Acelerar a adaptação às novas obrigatoriedades
- Inicie imediatamente a adequação às duplicatas escriturais e demais exigências acessórias.
- Crie um cronograma interno com metas e responsáveis definidos.
- Busque assessoria especializada para orientar a transição.
A reforma tributária não é apenas uma mudança técnica — é uma transformação estrutural. Empresas que se anteciparem, investirem em tecnologia e fortalecerem sua governança terão mais segurança e competitividade no novo cenário econômico.


