O que ficou nos meus braços

Sei que um dia fui criança, disso não me esqueci. Corri atrás dos meus irmãos,
subi em árvores e aprendi a rezar. Mas a infância que mais me ficou não foi a das
brincadeiras. Foi a do trabalho nos campos de algodão, dos sacos pesados, das
horas longas no meio da lavoura de feijão. Trabalhar nunca me assustou. Sempre
fui disposta. Sempre soube aguentar.
Do pouco que minha mente, hoje tão bagunçada, ainda me permite guardar,
lembro dos meus irmãos saindo de casa um a um. Casando, formando suas
famílias, seguindo caminhos que não foram os meus. Lembro dos primeiros
sobrinhos, do choro dos que ajudei a criar, das mãos pequenas agarradas às
minhas. Entre tantos irmãos, a vida me escolheu para permanecer. Para ficar. Para
continuar ao lado dos meus pais, ajudando na luta do roçado, enquanto o mundo
aprendia a ir embora.
Minha mãe quase não falava. Não porque não quisesse, mas porque não podia.
Era muda e surda, e se comunicava com o mundo por gestos pequenos, olhares
demorados e um silêncio que eu aprendi a entender. Talvez tenha sido com ela
que aprendi que amor não precisa de voz.
Houve um tempo em que percebi que meu destino não seria como os sonhos de
menina. Não me casaria. Não teria filhos. Não teria uma família com meu nome. O
que me restou foi aceitar e seguir vivendo como Deus queria que fosse. Cuidando
dos filhos dos outros. Dos sobrinhos. Dos filhos dos sobrinhos. Dos filhos dos
filhos dos sobrinhos. Sempre havia alguém precisando de mim. E eu nunca soube
negar cuidado.
Por muitos anos me senti completa. Sempre tive amor demais para caber em
mim. Gostava da casa cheia, do barulho que eu mesma criava, dos abraços
apertados, das bênçãos repetidas mesmo sem resposta. Eu acreditava que amor
dado criava raiz. Que quem a gente cria nunca esquece onde foi acolhido.
Até que um dia recebi uma criança nos braços e senti algo diferente. Um
pertencimento quieto, profundo. Naquele instante, soube o que era ser chamada
de mãe. Pensei que, enfim, teria alguém para estar comigo na velhice. Por muito
tempo fingi não enxergar que isso não aconteceria. Fingir doía menos do que
aceitar.
Com o tempo, todos aqueles que carreguei no colo cresceram e seguiram suas
próprias vidas. E a minha foi ficando para trás. Parada no mesmo lugar. Estagnada.
Houve dias em que me senti um estorvo — uma presença pesada demais para
quem nem do meu ventre nasceu de verdade.
Hoje, ela é quem mais me lembro. É por ela que chamo. É dela que sinto falta. É a
quem espero reencontrar, mesmo que não faça questão alguma de lembrar de
mim. Talvez esteja ocupada demais. Talvez queira vir me ver, mas não tenha
tempo. Talvez… talvez é a palavra que mais mora nos meus pensamentos
desalinhados.
Eu sei que ela me ama. Sei porque fiz tudo por ela. Fui a mãe que ela conheceu, a
que cuidou, a que não rejeitou. Tenho certeza de que um dia ela voltará. Voltará a
esta casa, a este quarto, e se sentará ao meu lado nesta cama onde hoje nino
minha filha mais nova.
Ela não fala.
Nunca falou.
E eu não estranho isso.
Minha mãe também não falava. E, ainda assim, eu a escutava com o corpo inteiro.
Apesar de sempre colocá-la para dormir, ela nunca fecha os olhos. Não chora, não
sorri. E dela nunca recebi um pedido de bênção. Mesmo assim, converso com ela
todas as noites, do mesmo jeito que conversava com minha mãe: sem esperar
resposta.
Minha filha mais nova não nasceu de mim.
Nasceu do silêncio.
Da memória que falha.
Do amor que não teve onde repousar.
É uma boneca de pano.
Dou-lhe nome. Arrumo seu vestido. Acomodo seu corpo leve no meu braço
cansado. Seguro-a com o mesmo cuidado com que segurei tantos outros ao longo
da vida. Talvez seja por isso que ainda consigo dormir.
Porque, mesmo quando a memória se perde —o amor, esse nunca esquece como
ficar.
Autora:
Maria Clara Costa do nascimento