Jornal Tribuna

O LEVIATÃ DO ESPELHO

Por edicao·
O LEVIATÃ DO ESPELHO

Breve tratado sobre como o Estado aprende a desprezar quem o criou e sustenta 19 de janeiro de 2026.

O Estado moderno não cai em ditadura: ele escorrega nela, de toga, carimbo e discurso nobre. Não precisa tanques, porque tem regulamentos. Não precisa baionetas, porque tem impostos. Não precisa censura explícita, porque dispõe de “mediação”, “responsabilidade” e “interpretação adequada”. O autoritarismo do nosso tempo é educado, bem-intencionado e profundamente convicto de sua própria superioridade moral.

O filme é conhecido. No Irã, uma revolução libertadora descobriu que o povo é um estorvo quando pensa por conta própria. A fé, capturada pelo Estado, virou instrumento de vigilância permanente. Em Cuba, a promessa de igualdade resolveu o problema da prosperidade: eliminou-a. Todos ficaram pobres — exceto os donos do partido, que, como toda aristocracia revolucionária, vive acima da miséria que administra. Já na Venezuela, o poder decidiu que a economia era um detalhe técnico dispensável. O resultado foi fome com retórica, inflação com discurso e ruína com slogan.

Não se trata de cultura, religião ou continente. Trata-se de método. Na África, chefes de Estado confundem libertação com propriedade privada do poder. Na Ásia, burocratas esclarecidos decidem o que é verdade, o que é consumo aceitável e o que é pensamento perigoso. Na Europa, velhos fantasmas reaparecem com nomes novos e censuras recicladas. A lógica é invariável: o Estado cresce; o cidadão encolhe.

O Brasil, como sempre, aprende rápido o pior e devagar o melhor. Aqui, a propriedade não é direito: é suspeita. Quanto mais produtiva, mais pecaminosa. A tributação deixou de ser instrumento de custeio e virou ferramenta de correção moral. Trabalhar demais é ofensivo; prosperar, quase criminoso. A livre iniciativa sobrevive como concessão provisória, tolerada até a próxima portaria, a próxima taxa, a próxima “atualização normativa”.

A liberdade individual vai sendo triturada em silêncio, como papel em repartição pública. Tudo é feito “dentro da lei”, mesmo quando a lei virou massa de modelar. O direito à vida, esse detalhe inconveniente, é relativizado diante do avanço do crime organizado, que governa bairros, impõe normas, cobra impostos paralelos e demonstra eficiência administrativa superior à do Estado formal. Já o crime de colarinho branco — elegante, falante, bem assessorado — é tratado como desvio conceitual, nunca como crime propriamente dito.

O Leviatã atual não bate: ele cobra. Não ameaça: ele regulamenta. Não rouba: ele redistribui compulsoriamente. Não cala: ele enquadra. Convencido de que sabe mais, decide mais e pensa melhor, o Estado passa a se enxergar como fim em si mesmo. O povo vira detalhe estatístico; a Constituição, um menu interpretável; a lei, um instrumento de ocasião.

Não é exagero. É manual. Quando o Estado trata o pagador de impostos como caixa eletrônico infinito, o empreendedor como delinquente em potencial e o cidadão como incapaz tutelado, o regime já fez sua escolha — só ainda não anunciou oficialmente.

A tirania contemporânea não se apresenta como tirania. Ela se fantasia de cuidado, progresso e justiça social. Mas o resultado é o mesmo de sempre: menos liberdade, menos riqueza, menos vida — e muito mais poder concentrado nas mãos de quem jamais paga o preço de seus próprios erros.

A história registra o desfecho com precisão cruel: quando o espelho finalmente se quebra, o Estado segue intacto. Quem sangra são aqueles em quem os estilhaços caem, aqueles que acreditaram que alimentar o Leviatã o tornaria manso.

Autor:

Rogério de Mello Franco

Comentários

Deixe um comentário