Carnaval dos corpos de caneta emagrecedora e bomba

Mais um carnaval chegou ao fim e os corpos femininos como sempre são assunto nas mídias após passarem dias serem expostos em carros alegóricos, no chão da avenida em fantasias minúsculas e nos camarotes da Sapucaí.
Esse ano, porém, um diferencial um tanto quanto peculiar apareceu: corpos extremamente magros e definidos. Corpo visivelmente seco, com o rosto sugado, ossos do ombro e clavícula aparentes, mas o abdômen e os membros definidos.
Criou-se um novo padrão de beleza, praticamente inalcançável, para mulheres pobres mortais que precisam trabalhar fora, cuidar da casa e dos filhos: a magreza definida. Não é mais só ser muito magra, essa moda ficou para trás, agora as mulheres precisam ser muito magras, mas terem definição.
Com a ascensão e popularização das canetas emagrecedoras – inclusive as falsificadas – , a magreza ficou “acessível”. Praticamente qualquer uma pode emagrecer de forma rápida e fácil, mas ser extremamente magra e com membros e abdômen definidos não é pra qualquer uma, afinal é preciso de um estímulo a mais, de um investimento a mais e duas peças chave que muitas mulheres não têm acesso: tempo e bomba (hormônios esteróides). E sim, não dá para acreditar que os corpos apresentados por 90% das influenciadoras e famosas no carnaval são naturais visto os resultados rápidos.
Sejamos francas, quantas mulheres possuem tempo diário de passar horas na academia fazendo os treinos de horas que as influenciadoras pregam? Quantas mulheres possuem dinheiro sobrando para uso estético de canetas emagrecedoras (na faixa de 1 mil reais) mais hormônios esteróides e procedimentos estéticos como drenagem, massagem modeladora e harmonizações?
Quando um padrão de beleza se torna acessível, as famosas precisam se colocar em uma prateleira de diferenciação e criando um novo padrão de beleza cada vez mais doloroso, mais caro e mais inacessível para as mulheres normais. Afinal, como as famosas vão vender os seus produtos, ganhar comissão na venda de cirurgias plásticas e venderem protocolos de treino e dieta, se todo mundo for igual a elas?
Combater padrões nunca é fácil. As marcas cosméticas, as indústrias farmacêutica e estética lucram em cima do ódio ao próprio corpo, da falta de aceitação do corpo da mulher, da necessidade de ser idêntica a influenciadora do momento.
Quantas mulheres vemos morrendo por tentarem se encaixar nos padrões e comprando canetas emagrecedoras falsas, já que as originais são caras? E as mulheres que buscam procedimentos de cirurgia plástica em locais clandestinos no sonho de conseguirem atingir o padrão de forma mais acessível? Quantas mulheres mais vão sofrer comprando produtos sem a menor eficácia que prometem trazer um corpo perfeito?
Os manequins das lojas estão cada vez menores. Eu sempre vesti o tamanho 36-38 nas lojas de fast fashion e mantenho meu físico e peso há anos, quando fui comprar novos jeans eu tive uma enorme surpresa: o 42 é o novo 38. Peguei as calças novas e coloquei em cima das antigas e as medidas são as mesmas, a mesma quantidade de pano, mas o número na etiqueta aumentou. Qual o impacto que isso pode ter na autoimagem corporal das mulheres?
São muitas perguntas que ainda precisamos fazer em busca de respostas que talvez nunca teremos.
Essa semana eu vi um questionamento muito interessante em uma rede social: por que seguimos pessoas que nos fazem sentir inferiores, feias, mal sucedidas e nos ensinam a odiar os nossos corpos? Também não soube responder, mas fui analisar algumas influenciadoras e personalidades que eu seguia e ao entrar no perfil eu me perguntava “essa pessoa está influenciando algo positivo em mim ou na minha vida?” se a resposta fosse não eu deixava de seguir. Fiz uma boa limpa nas redes sociais em busca de me blindar e cuidar da minha saúde mental.