Jornal Tribuna

Ao orelhão

Por edicao·
Ao orelhão

Um dia desses fazendo uma viagem a uma das belas praias do Ceará, avistei algo.
— É um orelhão? Um orelhão em cima de uma duna? Oxe, será mesmo?
Duvidei do que tinha visto (sou míope), o sol era forte e brilhante (sou astigmático). Quanto
mais perto da duna, mais o orelhão ficava nítido e os porquês vinham na mente. Afinal, não é
todo dia que se vê um Orelhão em cima de uma duna. Ao lado Orelhão, ficava um balançador
onde se podia tirar fotos. A composição, inesperada, era turística. Turista é bicho besta mesmo
(me incluo nisso). Passeando pela cidade, avistei mais alguns orelhões e balanços estilizados
com frases que turistas gostam de registrar em fotos. Turista é bicho besta.
O Orelhão na duna me fez lembrar de uma grande teoria moderna sobre o fim do mundo que
matutei na mente anos atrás e que havia me feito refletir bastante: depois que iniciaram o
massacre aos orelhões das ruas e avenidas desse Brasil, o mundo foi só ladeira abaixo.
Ali, ao redor do Orelhão, começavam os planejamentos de brincadeiras de crianças: faziam
dele ponto de partida ou ponto de chegada da corrida de bicicleta; era a linha imaginária onde
quem jogasse a bila o mais próximo era o primeiro a acertar o triângulo. Trotes e mais trotes
para pessoas e instituições que não irei nomear.
Orelhões eram placas de publicidade. Adesivos de gás, farmácias, santinhos de eleição,
propagandas de empresas telefônicas. Praticamente um minimercado que tinha uma lista
telefônica ali naquele ponto da rua.
Orelhões também eram tela onde os artistas de rua deixavam suas marcas. Eu não duvidaria se
algum artista famoso tivesse feito seus primeiros esboços naquela cápsula redonda que quase
tudo suportava. Letras estilizadas, que depois dali de ganhar cobrir o formato arredondado da
cápsula, ganhavam carteiras de escolas e muros de terrenos baldios.
Ali, de baixo ou ao redor do Orelhão, os vizinhos eram mais vizinhos do que hoje. Quando
alguém ligava, se atendia.
— Alô?
— Alô! O senhor quer falar com quem?
— Com D. Maria —Vou chamar viu!
(carreira)_(carreira)_________(carreira)___
— D. MARIIIIIA, TELEFONE PRA SENHOOOOOOORA.
— JÁ VAAAI!!!!
(carreira)_(carreira)_________(carreira)___
— Ela tá vindo (voz ofegante)
— Obrigado!
Atender o orelhão era uma missão em várias etapas e grau importantíssimo. A recompensa
podia ser um copo d’água, uns trocados, doces e até salgadinhos. Tenho uma vaga lembrança
de algumas disputas entres os pivetes da rua para quem atendia mais rápido.
Na hora que o sol esfriava, chegava o primeiro a sentar ali, depois o segundo, terceiro; alguém
trazia uma dama, dominó, baralho. Havia muitas pessoas sentadas na calçada, que naquela
altura já tinha virado praça. Ali era o ponto onde as mães viam suas crianças correr pela rua,
andar de bicicleta, joga bola… “OLHA O CAAAAAARRO, VAI PRA CALÇADA”.
Quando essas crianças cresceram, ali naquele mesmo local, começaram os primeiros amores e
os sinais de que a infância que corria, passava o bastão para a adolescência. No Orelhão,
apareceram recados deixados e escritos com canetinhas coloridas; iniciais de nomes e o
símbolo do infinito; na gramática juvenil, o ponto final era um coração. Acho que foi ao “pé da
orelha”, o primeiro beijo de muitas pessoas que conheço até hoje. O ponto de encontro da
adolescência que as vez era gritada pelo barulho que fazia –
CALEM A BOCA! VÃO FAZER BARULHO NA PORTAS DE VOCÊS
Todo mundo prendia a respiração e falava baixinho por alguns minutos. As gargalhadas
começaram novamente. De repente um balde d’água era jogado pela “dona do Orelhão” –
senhora da casa e da calçada onde o aparelho ficava. O Orelhão protegia do banho aqueles que
tinham mais sorte.
Vai ver, as coisas não desandaram quando a TV Globinho saiu do ar, mas sim quando
escantearam o nosso pobre amigo Orelhão e tudo aquilo que ele nos oferecia, fosse pagando
(pelos créditos em cartão) fosse de graça (tudo que já descrevi). Quantas brincadeiras não
foram mais planejadas? Quantos amores não aconteceram mais? Quantas pessoas não se
reuniram mais? Quantas pessoas não se ouviram mais?
O pobre Orelhão ou “cuia que fala” – como uma vez disse Drummond – sucumbiu aos tempos
modernos. Antes, se falava pra fora, hoje se “fala pra dentro”. Ligações caras e rápidas deram
lugar para ligações baratas e quase inexistentes; se tem centenas de números salvos e não se
liga para nenhum; se acelera a fala em x2, quando antes se acumulava experiência de semanas
e meses para se falar em poucos minutos gastando a preciosa ficha ou cartão.
Seria um bom plano político do estado brasileiro estilizar os orelhões tal qual aqueles que
avistei na praia e dotá-los de balançador? Nós não somos capazes de preservar algo tão nosso?
Porque não fazemos tal qual fizeram os britânicos com suas caixas telefônicas avermelhadas?
Elas são praticamente pontos turísticos. Se o Orelhão em cima da duna pudesse falar, ele
defenderia essa ideia?
Aos caros Orelhões do Brasil que ainda resistem e farão parte da vida dos brasileiros até 2028,
quando possível, escutem essa história e me liguem. Vamos conversar. Gostaria de ouvir a
opinião de vocês. Ao caro Orelhão da minha antiga rua, Obrigado!

Autor:

 Alisson Freitas

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