Traída pela memória…

Não chega a ser novidade para ninguém que o supermercado é um dos melhores lugares para se encontrar pessoas conhecidas, principalmente nas festas de final de ano. O espaço reservado que alguns supermercados dispõem aos clientes para tomarem uma água, oferecem também um ambiente casual e acolhedor.
Um point apropriado para tricotarmos os mais diversos assuntos ou simplesmente fofocarmos, ao depararmos casualmente com pessoas de nossa convivência diária ou ocasional. Daí, a expressão – Há quanto tempo!
Os encontros nem sempre são bem vindos em função das conversas às vezes não serem amistosas, por abrangerem assuntos que levam ao futebol, política e religião. Especialmente quando encontramos pessoas dissidentes, sejam por princípios ou doutrinas.
Quando isso acontece, independente se o assunto envolver política, futebol ou religião, vai ocasionar um possível desarranjo se o diálogo envolver pessoas fanáticas. Neste caso, uma saída à francesa, seria a melhor solução para se dissuadir de uma provável discussão.
Marta, nas recentes festas de final de ano, por exceder às guloseimas, estar acima do peso normal, ser uma solteirona carente e não gostar de ser chamada de titia, evita se encontrar com certas amigas. Sempre que se dispõe a sair de casa para ir ao supermercado, usa de estratégicas para fugir de conversas desagradáveis.
Certo dia, ela entrou e foi direto ao corredor de chocolates. Ignorando a balança digital, sua inimiga declarada, Marta seguiu o seu itinerário habitual em busca de uma caixa de bombom. Olha daqui, olha dali, avistou um senhor alto de cabelos grisalhos com pinta de galã. Diante de suas características físicas não teve dúvidas.
Só pode ser o Alberto imaginou consigo. Aquele ex-affair, destruidor de corações apaixonados que me trocou pela Lúcia. Sentindo o coração bater mais forte e levando em conta não ser capaz de ignorar seus sentimentos, não pensou duas vezes – Ajeitou o cabelo, fez bocão, olhar sedutor e foi ao seu encontro.
Chegando próximo ficou na ponta dos pés e tascou lhe um beijo de fazer splish, splash, como na música do Roberto Carlos. Quem estava próximo sem entender o que estava acontecendo, foi se afastando discretamente. Uma senhora idosa que passava pelo corredor na companhia de sua neta adolescente, esbravejou – Mas que pouca vergonha! Esse mundo está perdido.
Alberto, diante do inusitado, ficou paralisado sem saber o que fazer. Pensando consigo mesmo imaginou – Quem será essa doidivana? Passados alguns segundos, Marta percebendo que tinha dado um fora daqueles imperdoáveis, raciocinou rápido e exclamou – Engraçadinho! Nunca mais faça isso!
Como sendo à vítima e não a ladra de beijos, foi saindo de fininho como quem não fez nada. No final do corredor, ainda se deu ao luxo de dar uma olhada para trás para ver se ele à seguia, quando percebeu uma mulher vindo ao encontro dele. Curiosa, se escondeu e ficou olhando o desfecho de sua traquinagem.
A tal mulher era a esposa do Alberto, que diante do flagra em ver o marido aos beijos com outra mulher exclamou – Nunca viu uma mulher peituda? Seu assanhado! Em casa a gente conversa! Alberto até pensou em explicar o inexplicável, mas preferiu se calar diante dos fatos para não se comprometer ainda mais.
A espevitada da Marta, diante do furdunço que provocou ao ser traída pela memória, acabou se esquecendo de comprar a caixa de bombom. O coitado do Alberto, o inocente beijado, sem argumentos plausível, dormiu àquela noite no sofá da sala.
Autor:
Carlos R. Ticiano