PIPA

Desde criança havia uma fome insaciável presente em mim. Fome de algo a mais. Não eram os brinquedos, nem brigadeiros, tão pouco os presentes que me faziam completa. Vivia inventando fantasias diferentes, histórias e personalidades que fossem qualquer outra coisa, menos eu mesma. Podia ter as mais infinitas bonecas, mas, no fim, o destino delas era o mesmo todos os dias: acabavam sentadas em pequenas cadeiras de plástico, de frente para um quadro negro, sendo minhas alunas mais dedicadas – o silêncio delas escancarava o quanto ficavam interessadas e concentradas na aula que eu dava. Aprendi, mais tarde, que professor “leciona” e não “dá” as suas aulas. Sempre discordei ferrenhamente, pois o que mais eu poderia fazer com meus pequenos conhecimentos se não dar a eles a oportunidade de habitar mentes diferentes? Nunca lecionei, portanto, desde menina dou às minhas ideias passagens para passearem por outras cabeças (mesmo que fossem das bonecas). Era nesses momentos em que fingia ser professora que eu me sentia mais próxima de quem eu realmente era. Quantas vezes não fingimos ser algo que, no fundo, desejamos intensamente ser de verdade? Sinto que foi aí que surgiu a poeta que sou. Fernando Pessoa sabiamente adjetivou o poeta como um fingidor, de tamanha intensidade que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente. Eu fingia. E continuo fingindo a cada verso que escrevo.
Foi somente aos 5 anos que ganhei da minha avó meu primeiro livro. “A menina bonita do laço de fita” parecia inofensivo, até desbloquear um vício em leitura. Mal tinha aprendido a juntar as palavras e já tinha uma certa compulsão por entendê-las, mas a coisa ficou séria mesmo quando descobri que existiam as entrelinhas. Poderia defini-las como o local onde aquilo que não pode ser dito, é falado aos berros. Acreditem, há na vida algo muito semelhante às entrelinhas, mas a chamamos de “intenção”. E assim fui escalonando nas leituras conforme os anos foram se passando, até ler um romance. Maldito foi o primeiro romance que li, adoeceu-me para o resto da vida como uma doença crônica que se manifesta por um gatilho. Adoeceu-me da doença do século: A expectativa. “A vida não é um romance”, me diziam. Mas como eu queria que a minha fosse. Tenho por mim que apenas duas coisas são capazes de alimentar a alma: a primeira são os livros, a segunda é o amor. Eu sabia que era impossível unir os dois. Por isso, vivi 20 anos apenas na companhia dos livros – o que significa que nunca estive só, mas esperava muito mais.
Ainda menina, uma professora perguntou-me o que eu desejava ser quando crescesse, respondi mais que depressa: “eu quero ser grande”. Tantos anos se passaram e eu não mudaria nenhuma letra da resposta. Mais tarde, um novo sentimento foi desbloqueado: a inveja. Tinha inveja dos meus irmãos, todos mais velhos, que já frequentavam a escola. Até faziam contas que à época pareciam muito complexas – hoje, não muito diferente. Mais que isso, sabiam escrever folhas inteiras de um caderno, ainda por cima em letra cursiva! Ou como eu gostava de falar, escreviam bonito. Nossa, como eu desejava conseguir escrever daquele jeito, linhas curvas se atando a cada pensamento e formando um grande texto completo e recheado de ideias. Isso sempre tive de sobra, ideias. Mas como colocá-las em prática sem sequer utilizar papel e caneta? Quando meus irmãos passavam de série, deixavam para trás suas apostilas antigas. Ouro puro. Eu as pegava, punha um lápis em mãos, e contornava cada letra até aprender como se formavam, por horas e horas, até cansar meus punhos. Foi assim que aprendi a escrever bonito– ao que parece, não era coisa para a minha idade, mas isso nunca foi impeditivo para mim. Quando aprendi a falar, nunca mais parei. Da mesma forma ocorreu quando aprendi a escrever, nunca mais pude parar. Dali em diante, a escrita tornou-se um refúgio, um pequeno vilarejo para onde eu sempre corria, especialmente nos momentos mais difíceis. Sempre que os pensamentos começavam a extrapolar minha cabeça e me faltavam as rédeas para controlá-los, me sobravam palavras para por no papel. Descobri que a escrita à mão vai muito além de que escrever bonito, é uma rota de fuga, ou simplesmente um modo de organizar a bagunça e por cada coisa em seu lugar.
Aos 13 anos cometi outro grande erro: li meu primeiro livro da Paula Pimenta. Fui adicta pelos próximos dois anos e, sem que eu percebesse, circulava cada vez mais em minhas veias a idealização sutil de um amor fora de série. Como todo vício começa discreto e vai nos corroendo aos poucos, fui a cada ano me afundando mais no mar da literatura. Tinha tanta ânsia pela leitura que lia mais rápido do que nunca e, consequentemente, precisava de novas histórias para me intoxicar. Para meus pais, as livrarias viraram quase um terror. Eles sabiam que bastava eu passar na frente de uma que pediria um livro de presente. E eles também sabiam que jamais iriam recusar tal pedido, pois viam o quanto eu era fascinada pelas letras. Anos mais tarde, foi meu pai quem disse ao passarmos em frente à minha livraria favorita: “compra um livro para mim?”. O mesmo sangue que corria em minhas veias corria nas dele, é claro.
Assim os anos foram correndo, mas eu continuava a mesma. De tanto falar sobre meu desejo de viver um romance como nos livros que lia, aconteceu. Finalmente eu estava vivendo a tão sonhada história. Quem sabe de tanto que desejei, o destino decidiu me dar um presente pela fé depois de tantos anos? Nada mais importava, eu estava no ápice de minha vida, tinha tudo quanto queria e podia. Estava, enfim, feliz. O tempo foi passando e as linhas eram escritas cada vez mais distintas daquilo que imaginei. Era isso mesmo? Será que viver um romance é tão diferente assim de lê-lo? Em suas últimas linhas, essa história revelou-me mais do que o final: nela eu não fui como a protagonista de “Orgulho e preconceito” que tanto idealizei. Por ironia do grande Escritor do Livro da Vida, vivi a história de “Madame Bovary”, pelas lentes infelizes de seu marido traído e arruinado. Ouvi muitas vezes que ninguém morre de amor, mas e da falta dele? Naquele dia, quando finalmente cheguei ao ponto final do meu tão esperado romance, algo mudou em mim. Sofri a metamorfose da expectativa que se afoga nela mesma. Culpa minha e desse meu coração que tem mania de falar mais alto que a cabeça. Não sei se algum dia cheguei a pensar com o cérebro, porque sempre que me calo, tudo o que ouço é a voz do coração. Dessa vez ele estava calado. E eu, que sempre tinha algo a dizer, também.
Conheci o amor frustrado. Mas foi nessa amargura do coração que tudo ficou claro aos meus olhos: todas as vezes em que dei e não recebi, todas as vezes em que falei e não fui ouvida, todas as vezes em que chorei e não fui acolhida, todas as vezes em que escrevi versos de amor e ouvi: “nunca te escreverei de volta”. Pobre é aquele que nasce sem o dom de amar. De que alimentará sua alma senão de amor? Ele não entendia o sentido da vida. E eu, que sonhava em ser grande, forcei-me a ocupar um lugar que não me cabia, me diminuí, me encolhi, me apertei, mas aquele espaço nunca seria o suficiente para mim. Ainda assim, esperei. Esperei a mudança, esperei o melhor. E não me escreveu de volta, assim como não era capaz de me amar de volta. Porque o amor não é uma moeda de troca, é puramente uma entrega da qual não se deve esperar nada além. Eu amo simplesmente porque tenho capacidade de amar. O que é muito diferente da capacidade de ser amada. Pela primeira vez me senti incapaz verdadeiramente. Poderia eu algum dia ser compreendida por inteiro? Acho que não, isso é mania de quem leu demais. Percebi que à luz da idealização é muito fácil transformar qualquer sapo em príncipe, qualquer carinho em amor, qualquer palavra em consolo. Hoje entendo que, muitas vezes, é na arte de se reconstruir que nos fazemos, mas é fato que nunca iremos nos refazer exatamente da mesma forma como éramos antes. Haverá sempre uma rachadura em cada ponto que nos desfez para que nos lembremos de não permitir o mesmo golpe. A cada estilhaço que caía eu sequer era tomada pela fúria que esse revés merecia, poderia revidar um milhão de vezes, mas nunca recuperaria quem eu fui antes disso. Aparentemente, eu também era incapaz de odiar.
Dizem que o ódio é o contrário do amor. Estão todos terrivelmente equivocados. É a indiferença que revela de fato a ausência do cuidado e da atenção. O contrário do amor é a indiferença. E foi assim que aprendi mais uma coisa: é impossível ser complemente indiferente. Poderia dizer, ainda, que ser indiferente era um sonho. Como seria incrível simplesmente ver uma cena desconcertante e pensar: ”Isso não é da minha conta” e seguir meu caminho sem pensar mais nisso. Não me recordo de uma vez sequer em que obtive êxito em me indiferenciar. Penso sobre tudo quanto vejo e posso, inclusive sobre aquilo que nem poderia. Pensar é involuntário para todos, mas, para mim, é inerente ao meu ser. No dia em que as vozes da minha cabeça estiverem totalmente em silêncio, saberei que desci do trem da vida. Mas até lá continuarei pensando. E escrevendo.
Então era isso, com a história que sempre sonhei em viver me descobri incapaz. Incapaz de odiar, de ser indiferente, de parar de pensar e de ser amada. Sei que a vida tem a obrigação moral de nos ensinar, mas precisava ser tudo logo de uma vez? Posso dizer que sempre fui uma aluna aplicada, que tinha, inclusive, certo apreço pelas tarefas difíceis. Tudo aquilo que me envolvia em uma onda de pensamentos e raciocínios complexos sempre me fascinou, fazia-me esquecer da realidade – sempre cruel – e me colocava acima das nuvens, onde nada mais podia me alcançar. Por outro lado, esses novos desafios que a vida me impôs não foram instigantes e animadores, foram, na verdade, extremamente desestimulantes. Isso porque eu não tive apenas um coração partido, tive toda a minha percepção de mundo alterada de uma hora para a outra. Foi como se eu estivesse correndo na mais alta velocidade, e, de repente, arrancassem-me as pernas e deixassem-me ao léu. Como eu poderia voltar a correr agora? Como eu pude deixar que arrancassem-me as pernas sem que eu ao menos pudesse me defender? Eu simplesmente não vi se aproximando o golpe que aleijou-me, estava cega. Evitei olhar para a realidade que estava escancarada aos meus olhos, para agarrar-me à uma expectativa que quase me matou. Estava decepcionada com o mundo, mas, sobretudo, comigo mesma. Fui eu quem permiti tudo isso. Prometi a mim que nunca mais daria a alguém o poder de me fazer descer do céu – onde sempre estive – ao inferno, para onde jamais voltaria.
O resultado de toda essa metamorfose traumática foi claro: a apatia. Já não queria mais comer ou beber, tão pouco conseguia confortar-me na leitura, como sempre fiz. A cada tentativa frustrada de recuperar quem eu era, mais eu ficava perplexa com a falta de familiaridade com aquilo que passei a ser. E mais frustrada ficava. Esse ciclo me corroía todos os dias quando eu olhava no espelho e já não reconhecia o que via. Roubaram-me a identidade. E pior, eu nem lutei por ela. Sentia desgosto por me ver refletida tão fraca, tão pequena. Minha eu mais jovem sentiria vergonha de ver como a maldita expectativa me deixou. Por culpa dela eu estava definhando, por ter projetado algo inalcançável para minha vida e ter aceitado tão pouco. Eu, que sempre quis algo a mais, aceitei menos que o mínimo. Talvez eu merecesse apenas isso mesmo. Poderia, se mais tola fosse, ter me contentado. Mas entre encolher-me para caber em um lugar tão minúsculo – o coração de um homem que não ama nem a si mesmo – e não me submeter, optei por não me resignar, um gênio que certamente herdei de minha mãe. Encontrarei braços melhores para repousar? Pode ser que não, mas, se por algum acaso do destino isso me ocorrer, espero que sejam grandes o suficiente para me acolher por inteira.
Aprendi que nosso coração tem a indescritível habilidade que quebrar-se em um milhão de pedaços e fazer-se mais uma vez. Ele tem de se recompor, de novo e de novo. Assim, o meu se refez, mais forte e robusto, menos ingênuo e simpático. Toda a sensibilidade com que via o mundo e as pessoas ao meu redor deu lugar a uma extrema desconfiança. Meses se passaram sem que eu escrevesse mais um verso ou carta sequer. Como eu poderia? Não havia mais nada que me inspirasse. Nada é mais bonito do que inspirar-se por amor. Eu certamente nunca mais amaria. As portas do meu peito, que outrora eram escancaradas para o mundo, fecharam-se. Atrás delas ficaram escondidas todas as memórias da pessoa ingênua que um dia fui, juntamente com um grito apertado que silenciei dentro de mim, para não deixar que escapasse tudo aquilo que eu queria dizer, mas não disse. Minha mãe me falava para do mundo guardar apenas aquilo que é meu, porém sempre tive o ímpeto de manter um pouco do mundo em mim. Sou como uma acumuladora de milhares de emoções não sentidas e frases não ditas em um sótão do coração.
Tocar os pés no chão nunca fez o meu tipo, eu queria mesmo era encostar nas nuvens, vê-las de perto, perder-me na imensidão azul. Aquilo que todos conseguem ver é muito pouco, eu quero o invisível, o inédito, o impossível, um algo a mais. Não à toa, minha mãe apelidou-me de “pipa”, uma vez que se ela me soltasse, eu voaria para não mais voltar. Esse lugar não serve para mim, nunca serviu, é preciso ir, tenho de buscar o meu lugar. Eu preciso voar agora, mãe.
“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”
– Clarice Lispector