O artista visual Genivaldo Amorim questiona as mudanças climáticas naexposição “Aqui Será Mar”, que acontece na Pinacoteca de SãoBernardo do Campo

O país Tuvalu chamou atenção do mundo durante a COP15, em 2009, em
Copenhagen/Dinamarca, quando foi alçado à condição de símbolo das
consequências causadas pelas mudanças climáticas nos países menos
desenvolvidos
O artista visual Genivaldo Amorim apresenta a mostra “Aqui Será Mar”,
até o dia 28 de fevereiro de 2026 na Pinacoteca de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Curada por Isa Bandeira, a exposição reúne obras que tratam das mudanças climáticas a partir de uma residência que o artista fez em Tuvalu, em 2024, pequeno país na Oceania que desaparecerá nas próximas décadas por causa da subida do nível dos oceanos.
As obras de duas séries produzidas em Tuvalu, “Aqui Será Mar”, uma
série de fotografias de vários pontos do atol de Funafuti, onde vive a
maior parte da população, onde é vista uma placa azul com a
inscrição “Aqui será mar” e pinturas da série “Made in
Tuvalu”, onde foram usadas pedras de praias como instrumento de
pintura, marcando a superfície das telas.
A mostra é completada com três instalações: “Conversatório”,
composta por tambores de metal, câmeras e monitores, “Se 8 bilhões
pudessem beber esse mar” composta por 200 copos azuis e “O frio do
Norte é mais frio do que o frio do Sul”, com 18 cobertores dobrados,
cada um com uma etiqueta com o nome de um museu e uma cidade européia.
“O que se descortina como futuro para Tuvalu é algo totalmente novo,
o colapso dessa base sobre a qual um país é erigido. É a
impossibilidade de qualquer pedra fundamental seja lançada, porque lhe
faltará o fundamental: um lugar onde se assentar”, diz o artista visual
Genivaldo Amorim, que tem contato com o País desde 2012, quando uma
jovem local participou do seu projeto World Body Project, onde pessoas
ao redor do mundo lhe enviavam fotos vestindo camisetas vermelhas
pintadas por ele.
O projeto foi contemplado no ano passado no Edital Fomento CULT SP-PNAB
de Produção de Exposição Inédita de Artes Visuais do Governo do
Estado de São Paulo e Governo Federal, e tem o apoio da Secretaria de
Cultura de São Bernardo do Campo.
Made in Tuvalu
Durante as perambulações iniciais (na residência em Tuvalu), me
chamou atenção que não havia areia nas praias, apenas um amontoado
milenar de pedras e esqueletos de corais, que o embate diário e
paciente entre o oceano e a costa havia moldado e acumulado ao longo do
tempo, formando uma paisagem estranha, incômoda. Meu processo de
trabalho para a produção dessas pinturas começava com uma caminhada,
geralmente sob sol escaldante, por alguns quilômetros até essas longas
praias, geralmente desertas. Nesses locais eu espalhava tinta sobre as
telas e usava as pedras como ferramentas para riscar, raspar, marcar a
superfície, criando um fundo instável, movediço, que contrastava com
as formas vermelhas e brancas pintadas depois de retornar ao hotel.
Aqui será Mar
A série foi iniciada em 2023 com imagens de placas de madeira pintadas
de azul com a inscrição “Aqui Será Mar” em branco, colocadas em
espaços públicos de várias cidades do Brasil. Para realizar o
trabalho em Tuvalu optei por usar uma única placa e fotografá-la em
locais emblemáticos, que dessem uma ideia do que era aquele país. Há
uma ausência deliberada de pessoas nessas fotos, o que traz uma
sensação de lugares deixados para trás, à própria sorte, como uma
antecipação do amanhã.
O frio do Norte é mais frio do que o frio do Sul
Montada pela primeira vez em 2019, em Moçambique, com cobertores verdes
dispostos no chão sobre sacos vermelhos, a instalação “O frio do
Norte é mais frio do que o frio do Sul” ganha neste projeto uma nova
versão, agora com cobertores cinza dispostos sobre sacolas vermelhas. A
obra discute questões históricas como a relação entre Norte e Sul
global, tendo como elemento discursivo central o frio: climático,
geopolítico, social, cultural, institucional, com cada cobertor
identificado por uma etiqueta bordada com o nome de uma instituição de
arte contemporânea situada em algum país do Norte da Europa.
Se 8 bilhões pudessem beber esse mar…
200 copos azuis dispostos em uma espécie de cercado espelhado,
transmitindo a sensação de multiplicação infinita. Em cada copo
lê-se gravado o nome da obra, “Se 8 bilhões pudessem beber esse
mar…”, e o dos seis atóis (Funafuti, Nanumea, Nui, Nukufetau,
Nukulaelae e Vaitupu) e das três ilhas (Nanumanga, Niutao e Niulakita)
que compõem Tuvalu. A obra lida com a situação de Tuvalu de uma forma
poética, utópica, como se o país pudesse ser salvo por um gesto
coletivo e simbólico, com cada uma das oito bilhões de pessoas do
planeta bebendo um pouco do mar que ameaça engoli-lo.
Conversatório
A instalação “Conversatório” é composta por dez tambores de
metal, pintados de vermelho por fora e de preto por dentro, dispersos
pelo espaço expositivo. No interior de cada tambor uma câmera capta a
imagem de quem se aproxima e um monitor exibe a imagem captada em um
outro tambor. A conexão entre os tambores é feita de uma forma
embaralhada, sem ida e volta, criando um sistema de comunicação
truncado, disfuncional, onde a interação entre as pessoas se torna
impossível.
“Na sua produção, Amorim articula arte e contextos socioculturais,
abordando experiências de diáspora e, neste caso, os impactos das
mudanças climáticas globais. Durante os 30 dias de estadia,
compartilhou a rotina da comunidade tuvaluana. O artista não se coloca
como um turista acidental: sua viagem tem propósito definido, mas
permanece aberta à realidade encontrada no local. O projeto inicial
previa registros fotográficos e audiovisuais, além da criação de uma
obra a partir de materiais disponíveis na região. A série resultante
nasce de uma observação sensível, que possibilitou maior
aproximação com o Estado-ilha, “, acrescenta a curadora Isa Bandeira
em seu texto crítico.
Sobre o artista
Genivaldo Amorim nasceu em Umuarama/PR em 1973. Bacharel em Artes
Visuais, vive e trabalha entre Valinhos e São Paulo/SP, onde mantém um
ateliê. Trabalha com instalações, pinturas, fotografia, objetos, arte
pública e projetos especiais, explorando temas diversos, como meio
ambiente, relações humanas, relações entre espaços e contextos
artísticos e comuns. Além do Brasil, onde expôs em Instituições
como MuBE-Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (São Paulo SP),
MACC-Museu de Arte Contemporânea de Campinas (Campinas SP), MAB-Museu
de Arte de Blumenau (Blumenau SC), Casa das Onze Janelas (Belém PA),
MARCO-Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul (Campo Grande
MS), entre outros, expôs também em países como Alemanha, Camboja,
Namíbia, Uruguai, Moçambique e Canadá. Foi contemplado no Edital
Proac/Artes Visuais do Governo do Estado de São Paulo, em 2021 e 2024.
























Sobre a curadora
Isa Bandeira é Doutora em Comunicação e Cultura e Mestre em História
e Historiografia da Arte pela Universidade de São Paulo, Pós-Graduada
em Administração Pública pela UniCesumar, Isa Bandeira é Curadora
Independente. Atua principalmente com temas relacionados à pintura,
instalação, fotografia e performance.
Sobre o espaço
Em 1975, um decreto criou a Pinacoteca de São Bernardo do Campo,
institucionalizando o acervo que já vinha sendo reunido desde o final
da década de 60. Em 1980, o mesmo foi instalado em sua primeira sede, o
Centro Cultural do Bairro Assunção, e ampliado com uma nova série de
obras de vários grandes artistas brasileiros. De lá para cá, o acervo
continuou sendo ampliado, principalmente por meio de doações e
aquisições de obras premiadas nas edições do Salão de Arte
Contemporânea e do Salão de Arte de São Bernardo do Campo (promovido
pela Associação Sambernardense de Belas Artes – ASBA), Salão de Arte
Contemporânea e do Salão de Arte do Grande ABC.
Destacam-se nele, pela sua importância e representatividade, a
coleção de Arte popular e a coleção de artistas do Grande ABC. Com a
criação, em 1990, do Núcleo Henfil de Ação Cultural, essas obras
passaram a contribuir para um movimento de formação, difusão e
estímulo à produção cultural que foi marcante no início daquela
década. Esse acervo, que estava precariamente guardado no Espaço
Henfil de Cultura por vários anos, agora se encontra em sua nova sede,
no edifício do antigo Fórum Municipal, reformado e adequado para
instalar a Pinacoteca.
SERVIÇO RÁPIDO
mostra “Aqui Será Mar”
artista visual: Genivaldo Amorim
curadora: Isa Bandeira
período: 13 dezembro de 2025 a 28 de fevereiro de 2026
Terça-feira, 9h às 20h, quarta a sexta-feira, 9h às 17h
Último Sábado do mês, 10h às 16h
quanto: gratuito
classificação: livre
local: Pinacoteca de São Bernardo do Campo
Rua Kara, 105, Jardim do Mar
São Bernardo do Campo, SP – 09750-300
tel: (11) 26309600
site: https://cem.sisemsp.org.br/instituicao/8579/
email: pinacoteca@saobernardo.sp.gov.br
redes sociais
Genivaldo Amorim @genivaldo_amorim
Isa Bandeira @bandeira.isa
Pinacoteca de São Bernardo do Campo @pinacotecasbc
créditos
obras
Marcos Parodi / Divulgação
vistas
Karina Iliescu / Divulgação
Autor:
Erico Marmiroli