Jornal Tribuna

Que dia cinzento

Por Jaeder Wiler·
Que dia cinzento

Sim, tudo está nublado. Olho pela janela e vejo a cidade vestida de cinza, envolta por uma névoa delicada que se derrama dos céus como uma cortina silenciosa. A chuva fina esfriou as ruas, as calçadas, apagou o brilho das vitrines e obrigou as pessoas a recolherem seus passos. Mas garanto a você, leitor, que o meu interior não foi afetado. Ali dentro, tudo permanece iluminado, como se o sol nunca tivesse partido.

O que me mantém aceso, mesmo quando o mundo parece apagado, é a chama das minhas lembranças. São amores que vivi e amores que persistem, como pequenas lanternas que jamais se apagam. Um dos mais constantes é meu amor pela vida — este sim, eterno e indomável. No peito, trago praias maravilhosas, onde o pôr do sol é um espetáculo diário, sem fim. Trago também a lua e as estrelas, testemunhas silenciosas dos caminhos que percorri. E, nestes instantes em que me ponho a escrever, ouço o canto solitário de um sabiá-laranjeira. Não sei se ele recorda suas amadas, ou se canta para a principal amada, ou se simplesmente celebra estar vivo. Prefiro acreditar na última hipótese.

Frio, chuva, calor — pouco importa. Para mim, todas as estações do ano têm sabor de festa; são celebrações da existência. E sabe por que, leitor? Porque estou vivo! E se você lê estas palavras, é porque também está. Compartilhamos o milagre de respirar, de sentir, de amar. A vida, com suas nuances imprevisíveis, nos oferece dias cinzentos. Mas eles não me assustam. São passageiros, como tudo o que existe. Assim como a minha vida. Assim como a sua, leitor.

Aos que temem as nuvens, lembrem-se: o sol não se foi, apenas se escondeu por instantes. Quando menos esperamos, ele retorna, dourando tudo com sua luz. Por isso, celebro até os dias nublados. Eles me lembram que, apesar do véu de cinza sobre a cidade, há uma claridade persistente dentro de mim — e, quem sabe, também dentro de você.

Que venham, pois, os dias cinzentos. Eles não me assustam. São como pequenas pausas na melodia da vida, intervalos necessários que renovam o brilho dos nossos próprios sóis interiores.

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