Jornal Tribuna

O fio de barba virtual

Por Jaeder Wiler·
O fio de barba virtual

Houve um tempo em que a palavra era lei. Não, não era a Constituição, nem decreto, nem sequer bula de remédio — era simplesmente a palavra dada, que valia mais do que todos os carimbos do cartório juntos. Sou desse tempo. Naqueles dias, se você prometia alguma coisa, já podia reservar lugar na alma: ia ter que cumprir, sem chance de fugir. Não havia papel, contrato, selo, nem advogado — o combinado era cumprido no fio da barba! E não me venha perguntar se era barba feita ou por fazer, porque, naquela época, isso era só detalhe de estilo.

Os tempos mudaram, e hoje, para garantir um acordo, são precisos quilômetros de papel, carimbos, autenticações em três vias, duas testemunhas e, se bobear, até exame de DNA. E ainda assim, ninguém garante que o combinado vai acontecer. Ah, os velhos e bons tempos! Quando o que valia era a atitude, o famoso “olho no olho”, sem precisar consultar o SPC. Aliás, nem lembro de ter ouvido falar do SPC naquela época. Se alguém dava calote, a notícia corria mais rápido que pólvora, a fofoca propagava em tempo recorde, e o sujeito virava persona non grata na feira, no armazém e até no batizado do sobrinho.

Mas, como dizem por aí, o mundo gira, a vida roda, e a tecnologia resolve rodar muito mais depressa. Entramos na era digital: agora, papel só serve pra embrulhar peixe ou rabiscar senha do Wi-Fi (que você esqueceu pela décima vez). Segurança não é mais questão de palavra ou fio de barba, mas sim de senha, reconhecimento facial, digital, ocular e, se brincar, até do hálito pós-café.

Os bancos agradecem, os aplicativos vibram, as instituições pulam de alegria. Só que o ser humano, esse ser tão engenhoso, não desaponta: inventou o hacker, o fraudador high-tech, capaz de burlar sistemas que prometem ser mais seguros que cofre de banco suíço. Agora, enquanto o sistema digital evolui, os fraudadores fazem pós, mestrado e doutorado em “tapear” a tecnologia. Parece até competição: quem atualiza mais rápido, a segurança ou os golpes?

Eu, sinceramente, olho pra isso tudo com saudade do tempo do fio de barba. Pode chamar de nostalgia, de conservadorismo, mas confio mais na palavra do compadre do que na senha do banco. Se pudesse, voltaria na máquina do tempo só pra ouvir alguém dizer: “Tá combinado?” — e saber que tava mesmo.

No fim das contas, a evolução é inevitável, mas bem que podiam inventar um aplicativo chamado “Fio de Barba Digital”. Quem sabe aí, a palavra voltava a valer mais que qualquer senha!

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