Jornal Tribuna

EDUCAÇÃO: ENTRE O AFETO E A BARBÁRIE

Por Isabela Luing de Andrade Santos·
EDUCAÇÃO: ENTRE O AFETO E A BARBÁRIE

Por Isabela Luing de Andrade Santos

Durante o Congresso Nacional de Educação deste ano, tive a oportunidade de ouvir Bernard Charlot discutir um tema que resume com precisão o cenário atual do ensino brasileiro: “Educação ou barbárie?”. Suas palavras me atravessaram de tal forma que decidi transformar esse incômodo em reflexão pública.

A pergunta que me move desde então é simples, mas urgente: a educação brasileira tem sido feita com afeto ou com barbárie?

Como professora do ensino privado, tenho presenciado o adoecimento de colegas, sintomas de um sistema que também adoece. Por trás das salas de aula, há profissionais exaustos, desvalorizados e, muitas vezes, desacreditados. O que antes era vocação, hoje se tornou resistência.

As famílias, por sua vez, vivem seus próprios esgotamentos. Mas, em vez de estabelecerem uma parceria com a escola, muitas vezes adotam uma postura de enfrentamento. A escuta tem sido substituída pela acusação; o diálogo, pelo julgamento. E a escola, que deveria ser espaço de construção coletiva, se vê cada vez mais limitada por exigências externas e por uma democracia que, em certos aspectos, se tornou paralisante.

Se olharmos para a escola pública, o cenário se agrava. Faltam condições, estrutura e, sobretudo, reconhecimento. Falta o essencial: a compreensão de que educar é um ato de cuidado, e não de sobrevivência.

Nesta Semana do Professor, o convite que deixo é à reflexão. Mais do que homenagens, precisamos de escuta. É hora de repensar o verdadeiro papel do educador na formação cidadã do país.

E deixo algumas perguntas incômodas:

Será que as famílias têm cumprido seu papel formador?

Será que a escola não tem carregado sozinha o peso de uma sociedade que se recusa a educar seus filhos?

Será que o respeito ao professor ainda é um valor reconhecido, ou tornou-se uma lembrança distante?

Também me dirijo aos alunos: humanizem a figura do professor.

Tratem-no com respeito. Compreendam que, antes de ensinar, ele sente, erra, se cansa. A sala de aula não é um campo de disputa, mas um espaço de encontro.

Uma amiga costuma repetir uma frase de Che Guevara: “É preciso endurecer, sem jamais perder a ternura.” Essa talvez seja a maior lição que deveríamos reaprender: a ternura como ferramenta de resistência.

O adoecimento e o apagão docente não são uma previsão para o futuro, estão acontecendo agora, diante de nossos olhos. E, enquanto a sociedade permanece inerte, a barbárie avança silenciosa, disfarçada de normalidade.

É tempo de escolher: educação ou barbárie?

Isabela Luing de Andrade Santos é professora de Língua Portuguesa e Literatura, pesquisadora e educadora na rede privada de ensino na Bahia

Comentários

Deixe um comentário