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Uma crise diplomática em cascata: como o Brasil mudou as regras do jogo com Israel

Por edicao·
Uma crise diplomática em cascata: como o Brasil mudou as regras do jogo com Israel

As raízes políticas da crise

As raízes da crise atual entre o Brasil e Israel podem ser rastreadas voltando-se aos fundamentos ideológicos e institucionais estabelecidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu então chanceler Celso Amorim durante seu primeiro mandato (2003-2010). Naquele período, o Brasil buscou formular uma política externa independente da polarização tradicional entre Ocidente e Oriente, baseada em quatro pilares essenciais: a autonomia na tomada de decisões políticas, distante de pressões externas; a promoção de uma ordem mundial multipolar que limitasse a hegemonia das grandes potências; a defesa do direito internacional como garantia fundamental do equilíbrio das relações internacionais; e, por fim, a centralidade dos direitos humanos na diplomacia brasileira, princípio consagrado pela Constituição de 1988.

Esses princípios permitiram ao Brasil consolidar sua imagem como uma potência emergente do Sul Global, buscando atuar como mediador entre o Norte e o Sul e, ao mesmo tempo, como voz em defesa de causas libertárias justas – sobretudo a palestina. Em 2010, o país reconheceu o Estado da Palestina com Jerusalém Oriental como sua capital e passou a apoiar sistematicamente resoluções da ONU contrárias à ocupação e aos assentamentos.

Com o retorno de Lula ao poder em 2023, esses pilares foram reativados com ainda mais força, em um contexto internacional marcado pelo aumento das tensões geopolíticas e pelo declínio da confiança nas instituições multilaterais. A guerra em Gaza, deflagrada em outubro de 2023, tornou-se um campo propício para a aplicação prática desses princípios. Contudo, esse posicionamento chocou-se diretamente com a narrativa israelense, que busca enquadrar suas operações militares como defesa legítima, enquanto Lula as denunciou como violações graves do direito internacional e forma de genocídio. Assim, a crise atual não foi fruto apenas de declarações circunstanciais, mas resultado de um acúmulo estrutural que reflete a contradição entre a aspiração do Brasil de liderar um Sul Global baseado na justiça e nos direitos humanos e a insistência de Israel em proteger sua legitimidade internacional por meio da força e do apoio ocidental.

O início da crise: Gaza no centro do confronto

A deflagração da guerra israelense contra Gaza em outubro de 2023 constituiu um teste decisivo para a política externa brasileira, retomada por Lula em seu novo mandato. Em 25 de outubro de 2023, o presidente qualificou as operações militares de Israel contra a Faixa de Gaza como genocídio, termo com peso jurídico e político considerável no direito internacional.

O ápice inicial do confronto ocorreu alguns meses depois, na cúpula da União Africana em Adis Abeba, em fevereiro de 2024, quando Lula comparou o que ocorria em Gaza aos crimes do Holocausto nazista contra os judeus.

A declaração gerou um terremoto diplomático sem precedentes em Israel. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu classificou as palavras de Lula como “repugnantes e perigosas”, enquanto o chanceler israelense, Israel Katz, deu um passo inusitado ao declarar o presidente brasileiro “persona non grata” em Israel – algo sem precedentes no histórico bilateral. Simultaneamente, o embaixador do Brasil foi convocado ao memorial do Yad Vashem para ser lembrado das atrocidades do Holocausto, numa tentativa israelense de retratar as declarações de Lula como um insulto à memória histórica judaica.

A escalada gradual

Apesar das pressões, Lula não recuou em seu discurso. Pelo contrário, consolidou-o como parte de uma visão ética de política externa independente. Em junho de 2024, reiterou que o que Israel fazia em Gaza não era defesa própria, mas uma “vingança sistemática” contra civis. Em junho de 2025, durante visita a Paris, elevou novamente o tom, qualificando a guerra como “um genocídio programado realizado por um exército altamente equipado contra mulheres e crianças”.

O ponto de virada ocorreu em 29 de julho de 2025, quando o governo brasileiro anunciou sua saída da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), organismo ao qual o Brasil havia aderido durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, alinhado a Israel. O governo justificou a decisão afirmando que os compromissos legais e políticos vinculados à adesão colidiam com a autonomia da política externa brasileira e limitavam sua liberdade de expressão em questões internacionais, especialmente no conflito israelo-palestino.

A medida gerou reações indignadas no plano internacional, sobretudo de organizações judaicas globais, que a interpretaram como enfraquecimento dos esforços contra o antissemitismo e erosão do dever moral histórico de preservar a memória do Holocausto. Israel qualificou a decisão como “ato hostil”, interpretando-a como evidência de uma guinada estratégica profunda da política brasileira em relação ao país e como sinal de um reposicionamento regional e global do Brasil que enfraquece a influência israelense na América Latina.

O clímax: a crise da representação diplomática

Em 26 de agosto de 2025, a crise atingiu o ápice quando o governo brasileiro rejeitou a indicação de Gali Dagan como embaixador israelense, em substituição a Daniel Zohar-Zonshine. O gesto, mais do que protocolar, foi entendido como mensagem política de que a relação bilateral entrara em fase de ruptura estrutural, afetando diretamente os canais oficiais.

A resposta israelense veio com o rebaixamento do nível da representação diplomática no Brasil para o de encarregado de negócios. Além disso, em postagens na plataforma “X”, o ministro da Defesa, Israel Katz, atacou diretamente Lula, acusando-o de antissemitismo e de alinhamento ao Irã e ao Hamas. Em uma das publicações, divulgou inclusive uma imagem manipulada por inteligência artificial retratando Lula como marionete nas mãos do aiatolá Ali Khamenei.

O Brasil reagiu de imediato por meio de nota oficial do Itamaraty, que qualificou as declarações e postagens como “insultos inaceitáveis e mentiras deliberadas” e responsabilizou Israel diretamente pelo ataque ao Complexo Médico Nasser em Khan Younis, no qual morreram 20 palestinos, incluindo cinco jornalistas.

A partir daí, a crise passou de um mero embate discursivo a uma ruptura diplomática de pleno direito, marcada pela troca de insultos e acusações, evidenciando a quebra de confiança e a ausência de canais diplomáticos de alto nível.

Repercussões: internas, regionais e internacionais

Para os palestinos: As posições brasileiras abriram espaço para reposicionamento internacional, reforçando causas como o reconhecimento do Estado da Palestina e as investigações no Tribunal Penal Internacional. O discurso de Lula, ao comparar Gaza ao Holocausto, deu novo fôlego à causa como tema de direitos humanos globais.

Para Israel: A crise significou perda de um parceiro regional de peso como o Brasil, retração de sua influência na América Latina e maior dependência dos aliados ocidentais tradicionais. A escolha pelo confronto aberto, com insultos pessoais e rebaixamento diplomático, reforçou a imagem de Israel como Estado de postura intransigente e isolacionista.

Para o Brasil: O posicionamento refletiu a vontade do Sul Global de redefinir os fundamentos da legitimidade internacional fora da órbita ocidental. A defesa da Palestina fortaleceu a imagem do Brasil como potência regional engajada em questões globais e reforçou sua liderança nos BRICS e em coalizões Sul-Sul.

No plano regional latino-americano: A postura de Lula incentivou países como Chile, Colômbia, Bolívia, México, Cuba e Nicarágua a endurecer suas posições contra Israel, consolidando um bloco regional pró-Palestina.

Conclusão: a crise como oportunidade estratégica e transformação estrutural nas relações internacionais

A crise diplomática entre Brasil e Israel ultrapassou a dimensão de um conflito episódico, tornando-se indício de uma transformação estrutural nas relações internacionais.

Para os palestinos, abriu-se uma oportunidade de passar da reação à iniciativa, com o Brasil atuando como plataforma diplomática para fortalecer pautas como o reconhecimento do Estado palestino e processos no TPI.

Para o Brasil, representou a consolidação de sua imagem como potência média independente, capaz de propor uma visão ética da política internacional fundada nos direitos humanos e no direito internacional.

Para Israel, a crise significou perda de espaço estratégico e maior exposição a pressões diplomáticas, além de colocar sua narrativa sob escrutínio intensificado no cenário global.

Em última instância, a crise Brasil–Israel reflete o encontro entre dinâmicas regionais e internacionais, envolvendo potências médias do Sul Global, como o Brasil, e iniciativas multilaterais lideradas por atores como França e Arábia Saudita. Representa também a possibilidade de equilibrar a busca por estabilidade regional com a defesa de princípios universais de justiça e direitos humanos.

Autor:

Dr. Rasem Bisharat

Doutor em Estudos do Oeste Asiático / Especialista em assuntos brasileiros

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