O tempo nos espelhos

Já gostei de espelhos. Sim, na juventude, não saía da frente deles. Os espelhos levantavam a minha moral: diziam que eu era bonito e forte, que qualquer roupa caía bem. Elogiavam meus dentes, brancos e alinhados; opinavam até sobre o corte de cabelo. Eram quase como a mãe zelosa que, na infância, enxergava perfeição em cada detalhe seu. Até me aconselhavam sobre qual roupa vestir para encontrar a namorada. Eram firmes e inquebráveis em suas opiniões. Todos torciam por mim, a cada gesto, a cada dia.
Para ser sincero, caro leitor, não havia tempo ruim. Fosse sol ou chuva, antes de sair para a batalha diária, os consultava. Nunca erravam. Davam sempre aquele empurrãozinho: “Vá para a reunião, você está impecável!”, “Vá jantar com a namorada, ela vai te admirar!”. Enfim, todos os espelhos que consultava enalteciam minha autoestima.
Mas, agora que a juventude passou, confesso: passei a odiar espelhos.
Sabe por que, leitor? Porque eles deixaram de ser aliados e passaram a mostrar, sem piedade, o tempo em meu rosto: “Olha só a sua idade…”, eles sussurram entre rugas e cabelos brancos. “Não faça mais isso, cuidado com a escada, você pode cair.” Começaram a zombar de mim. Falam dos cabelos rebeldes, da pele enrugada. Relembram-me: “Sua namorada se foi, agora só resta a esposa, e logo Jesus vai te chamar”.
Foi a gota d’água. Quebrei todos os espelhos de casa. E aviso: em casa onde houver espelhos, não entro mais.
Assim, caro leitor, sigo me reinventando sem reflexos, confiando que o tempo, esse sim, é um verdadeiro mestre da sinceridade e das oportunidades para cada etapa de nossas vidas.