RESENHA CRÍTICA: “OS DESAFIOS DA EJA NO CAMPO” DE CIBELE BARBOSA PROCÓPIO CARDOSO

O trabalho “Os Desafios da EJA no Campo”, apresentado por Cibele Barbosa
Procópio Cardoso como Trabalho de Conclusão de Curso para a Especialização em
Gestão Escolar na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG), em 2011, aborda as complexidades da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em
contextos rurais, com foco na Escola Municipal João Fernandes dos Santos, localizada
em São João da Ponte, Minas Gerais. Orientado pela professora Micheli Virginia de
Andrade Feital, o texto discute o histórico da modalidade EJA, o perfil dos educandos, a
necessidade de uma abordagem curricular específica e os desafios na formação docente.
Como anexo, inclui o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, reforçando a análise
prática. A autora enfatiza a importância de uma educação contextualizada, que respeite
as peculiaridades socioeconômicas dos alunos, promovendo a inclusão e o letramento
como ferramentas de cidadania.
O texto inicia-se com o contexto histórico da EJA, destacando sua inserção na
Constituição Federal de 1988 e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB)
nº 9.394/96, que a integra ao Ensino Fundamental Regular. Cardoso descreve o perfil dos
educandos como majoritariamente desfavorecidos socialmente, com trajetórias
marcadas por evasão escolar, repetência, trabalho precoce e diversidade etária e
cultural. Esses alunos buscam a EJA para superar obstáculos e atender às demandas de
um mercado de trabalho competitivo, mas enfrentam barreiras como baixa autoestima
e ritmos de aprendizado variados.
No segundo capítulo, a autora argumenta pela premência de uma abordagem
curricular específica, criticando a adaptação inadequada do currículo regular para a EJA.
Ela defende uma educação para a cidadania que valorize conhecimentos prévios,
diversidade sociocultural e participação comunitária, citando o Programa Nacional dos
Conselhos Escolares (2004) para enfatizar o exercício de poder na ação educativa.
Exemplificando com a realidade da escola analisada, implementada em 2003 sem
capacitação docente, Cardoso aponta falhas como planejamento condensado em seis
meses, desrespeito ao tempo de aprendizado e ausência de materiais didáticos
adequados. Problemas como o “alunos do café” (interrupção escolar pela colheita)
ilustram raízes socioeconômicas da evasão.O terceiro capítulo aborda a organização
curricular e os desafios da formação docente, propondo uma estrutura que priorize
habilidades fundamentais, relações vivenciais e mediação pedagógica. A autora conclui
que o professor de EJA deve ser sensível ao contexto do aluno, promovendo o
letramento como base para uma sociedade igualitária.O anexo apresenta o PPP da
Escola Municipal João Fernandes dos Santos, criado em conformidade com a LDB,
enfatizando objetivos como erradicação do analfabetismo, integração escola-família
comunidade e avaliação qualitativa. Detalha o histórico da escola, justificativa, currículo
(organizado em áreas de conhecimento), calendário escolar, recuperação e articulação
comunitária, reforçando a necessidade de um ensino dinâmico e inclusivo.
Cardoso oferece uma visão pragmática e contextualizada dos desafios da EJA
rural, alinhando-se a perspectivas progressistas da educação brasileira, como as de Paulo
Freire, embora não citadas diretamente. Sua crítica à formação docente é pertinente,
ecoando Gatti (1997), que denuncia a precariedade na capacitação de professores para
modalidades especiais. A ênfase na flexibilidade curricular e no respeito ao tempo do
aluno dialoga com Antunes (2001), que define planejamento como processo de
transformação da realidade. No entanto, o texto peca por não aprofundar dados
empíricos quantitativos sobre evasão ou desempenho na escola analisada, limitando-se
a observações qualitativas. Além disso, a proposta de currículo específico poderia ser
mais detalhada, com exemplos práticos de metodologias. O anexo do PPP enriquece a
análise, mas revela contradições, como a adoção de um sistema seriado que pode
perpetuar reprovações, contrariando o ideal de inclusão. No geral, o trabalho contribui
para o debate sobre gestão escolar em contextos periféricos, destacando a EJA como
ferramenta de empoderamento, mas urge por ações políticas mais robustas.
“Os Desafios da EJA no Campo” é uma reflexão valiosa sobre a necessidade de
adaptar a educação às realidades rurais, promovendo uma gestão escolar democrática
e inclusiva. Cardoso defende que a EJA transcenda o mero supletivo, tornando-se espaço
de construção de saberes significativos. Recomenda-se para educadores e gestores
interessados em equidade educacional, inspirando mudanças que alinhem teoria e
prática.
REFERÊNCIAS
ANTUNES, Celso. Glossário para Professores. Petrópolis: Vozes, 2001. p. 230.
BRASIL. MEC. Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Disponível em:
http://www.mec.gov.br. Acesso em: 11 de junho 2011.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Proposta
curricular para educação de Jovens e Adultos, 2002.
BRASIL. Ministério da Educação/Ação Educativa. Educação para Jovens e Adultos –
Ensino Fundamental – Proposta Curricular – primeiro segmento. Vera Maria Masagão
Ribeiro (Coordenação e texto final). Brasília/São Paulo, 2001. p. 35.
GATTI, Bernardete A. Formação de professores e carreira: problemas e movimentos de
renovação. Campinas: Autores Associados, 1997. p. 4.
SOEK, Ana Maria; STOLTZ, Tânia. Mediação Pedagógica na Alfabetização de Jovens
e Adultos. Curitiba: Ed. Positivo, 2009. p. 34.
VÓVIO, Cláudia Lemos. Viver, aprender: Educação de Jovens e Adultos (Livro 1). São
Paulo: Ação Educativa; Brasília: MEC, 1998.
YUS, Rafael. Temas Transversais: em busca de uma nova Escola. Porto Alegre:
Artmed, 1998.
Autor:
Professor Dr. José Rinaldo Domingos de Melo