Jornal Tribuna

Encontro na boate

Por Jaeder Wiler·
Encontro na boate

O silêncio do estacionamento era rompido apenas pelo distante eco das músicas que ainda pulsavam dentro da boate. As luzes amarelas projetavam sombras suaves sobre os carros, enquanto aquela mulher de beleza singular, sentada ao meu lado, mantinha o olhar fixo nos meus olhos com uma intensidade que misturava doçura e mistério.

Ela respirou fundo, os dedos ainda entrelaçados ao meu pescoço, e sua voz, antes sussurrada, agora ganhou um tom quase solene:

— Antes de qualquer coisa, preciso te confessar uma verdade — disse, afastando-se um pouco para me encarar de frente. O verde dos olhos parecia ainda mais vívido sob a luz tênue, e o silêncio entre nós se fez pesado, como se o tempo tivesse parado para ouvir sua revelação.

Por um instante, temi que aquela noite de dança e risos fosse se diluir numa confissão amarga. Mas ela sorriu, um sorriso tímido, quase infantil, e prosseguiu:

— Sou apaixonada por finais inesperados. Talvez por isso tenha me aproximado de você… Eu costumo deixar a vida me levar, sem roteiro marcado. Não sei se você acredita em acaso, mas esta noite, quando entrei naquela boate, prometi a mim mesma que faria algo que nunca fiz antes.

O coração acelerava com cada palavra, e confesso que o mistério alimentava minha curiosidade. Ela continuou fitando o horizonte do estacionamento como se buscasse coragem:

— Preciso te dizer que nada do que aconteceu foi planejado. E, mais importante ainda, é que não sou quem você imagina. Talvez amanhã, ao acordar, descubra que meu nome não é Sofia e que não sou quem você imagina, ou que meus gostos são outros. Mas se você quiser viver este momento, sem garantias além do agora, podemos transformar esta noite em algo memorável.

Sorri de volta, sentindo que aquela revelação não diminuía em nada o encanto da noite; ao contrário, tornava tudo ainda mais intenso e verdadeiro. Saímos do carro e seguimos juntos, de mãos dadas, como dois desconhecidos que escolheram confiar no mistério do instante.

Entramos no meu apartamento, mergulhados na promessa de um final que não precisava de definições. O som da madrugada se misturava ao riso e aos silêncios, e cada olhar, cada toque, era uma celebração do acaso. Abri uma garrafa de vinho e quando íamos avançar na intimidade perguntei, qual o seu verdadeiro nome. Ela titubeou e respondeu bem baixinho…João!

Naquela noite, descobri que o verdadeiro fascínio reside no inesperado e pode ser também muito perigoso — e que por vezes não precisamos ser tão rudes para sair de uma situação indesejada.

Respirei fundo e disse a ele: tome sua taça de vinho enquanto chamo um Uber pra te levar pra sua casa…

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