Jornal Tribuna

Cinzas do passado: cinco dias sem fumaça

Por Jaeder Wiler·
Cinzas do passado: cinco dias sem fumaça

Parar de fumar, após quase seis décadas de convivência com o fumo, é como romper um pacto insidioso firmado a cada tragada. A palavra irritação, tão pequena, parece insuficiente para traduzir o turbilhão de emoções, o desassossego que invade corpo e mente quando o gesto automático de acender um cigarro é, de repente, proibido a si mesmo. Uma parada abrupta.

Hoje, caro leitor, o dia ganha contornos especiais: faz cinco dias que meu pulmão não conhece o bafo quente da fumaça, que minha língua não sofre o ardor de um cozimento que vinha acontecendo há tanto tempo, de maneira lenta e cruel. Cinco dias de ausência de um velho inimigo íntimo, cuja presença era tão constante quanto o ar que eu respirava. Preciso erradicar o hábito de fumar da minha vida; só penso nisso nestes últimos dias. Tenho fé, vou conseguir…

O caminho até aqui é feito de noites inquietas e manhãs ansiosas, de uma sensação de vazio nas mãos e de um silêncio estranho nos pulmões. Não é mérito pequeno, caro leitor, caminhar cinco dias sem ceder ao hábito que parecia cravado na alma. Parece uma eternidade…

Há quem ria, achando que a dor do abandono é exagero: não é, asseguro. Cada célula do corpo, cada memória do prazer fugaz, grita por mais um trago de fumaça, mesmo sabendo que é ela quem corrói lentamente a vitalidade que resta. Parar de fumar é uma luta diária, silenciosa, uma batalha contra um adversário alojado nas entranhas, alimentado por anos de costume e ilusão.

Aos cinco dias, resta um misto de orgulho e incredulidade. Repito para mim mesmo: tenho que conseguir, tenho que continuar essa luta. Vou derrotar o hábito! Vou derrotar o vício! Não posso ceder um segundo. Como pude, durante tanto tempo, manchar meus pulmões com essa ridícula combustão: fumaça, cinzas e brasas. Já estou sentindo a melhora; agora, sinto a inspiração mais profunda, uma respiração mais leve e limpa. Até agora, minha pequena vitória. Não está sendo fácil. Na verdade, estou subindo pelas paredes — irritação total? Uma sensação de loucura. Mas estou resistindo. Ainda assim, é, sem dúvida, um feito, você não acha, caro leitor?

E se, do outro lado, alguém ri da angústia, peço respeito. Parar de fumar não é apenas largar o cigarro: é transformar-se, reinventar o próprio cotidiano, encontrar sentido onde antes só havia fumaça. Hoje, cinco dias depois, cada segundo é conquista.

Que venha o sexto. E, quem sabe, um pulmão mais limpo para inspirar livros inteiros de novos dias.

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