Jornal Tribuna

À sombra da eternidade

Por Jaeder Wiler·
À sombra da eternidade

Sento-me embaixo de uma árvore frondosa. Sua copa se espalha pelo céu, desenhando arabescos de luz e sombra sobre o solo que, há muito tempo, abriga histórias secretas. Nesta tarde serena, o tempo parece suspenso—e, na quietude do instante, percebo que minha idade se entrelaça com a dela; sou, como ela, repleta de raízes profundas e um desejo de viver com intensidade.

Quero viver muito. Não apenas existir, mas respirar cada nuance do mundo: os raios prateados da lua que filtram entre as folhas, os dourados do sol que aquecem a pele e o espírito, e o espetáculo silencioso do astro descendo além do horizonte, prometendo o renascer do dia seguinte. Sonho com uma visão interminável, uma sequência infinita de crepúsculos e auroras, como se o ciclo da natureza fosse um filme sem fim, em que cada cena traz novas promessas.

Como esta árvore, já dei frutos. Os frutos da existência, do amor, da dedicação, da esperança. Vivo presenciando a cada dia o amadurecer deles—meus filhos, meus feitos, meus sonhos concretizados e os que ainda crescem à sombra da minha vontade. Levanto-me do meu abrigo verde, estendo a mão e colho um desses frutos, contemplando sua forma com ternura. Saboreio-o devagar, permitindo que o gosto me transporte às alegrias da infância, à inocência dos primeiros anos, aos risos que antecederam as responsabilidades da vida adulta.

A memória faz morada nesse cenário. Vejo, nas entrelinhas da paisagem, cenas do passado: a semente que um dia plantei, pequena e frágil, mas cheia de potencial. Vi essa árvore crescer, acompanhei cada estação, cada tempestade, cada broto que lutou para romper a terra. Corri o mundo levando comigo sonhos e saudades, e, ao retornar, encontrei minha árvore, agora majestosa e imponente, testemunha silenciosa de todos os tempos em que estive ausente.

Quanta beleza há em perceber que nossos gestos mais simples, como plantar uma árvore, podem se transformar em monumentos vivos, que acolhem nossos pensamentos e oferecem abrigo ao corpo e à alma. Este é um lugar onde me permito sonhar e relaxar, onde as preocupações se dissipam na brisa e os desejos se alargam como raízes buscando água. Quantos já encontraram sombra sob seus galhos? Não sei dizer, mas imagino rostos, vozes, histórias entrelaçadas. Sei que, em minha vida, também fui abrigo e aconchego para quem precisou de descanso, carinho e compreensão.

Espero, sinceramente, que meus filhos também plantem outras árvores, que perpetuem o ciclo de cuidado, respeito e amor pela terra. O mundo verde, sem sombra de dúvida, é mais belo, saudável e harmonioso. As árvores são pontes entre gerações, entre passado e futuro; são testemunhas do tempo e guardiãs da esperança. São símbolos do que há de mais profundo em nós: a capacidade de criar, de proteger, de transformar.

Chegada a hora, desejo que minhas cinzas sejam depositadas sob esta árvore, bem juntinho às suas raízes. Que eu, enfim, retorne à terra, tornando-me parte do ciclo eterno da natureza. Que minhas lembranças alimentem seu vigor, que meus sonhos se misturem ao solo, que minha essência se perpetue em cada folha que dança ao vento. E, quem sabe, que meu legado inspire outros a plantar árvores, a acreditar no poder dos gestos simples, a sonhar com um mundo mais verde e acolhedor.

Mas, como toda narrativa, há uma inquietação que me acompanha: o progresso avança com força, e não raro vejo árvores tombarem diante da marcha dos tratores, do concreto e do asfalto. Rezo para que o progresso respeite este abrigo, para que a árvore continue erguida, desafiando o tempo e a pressa humana. Se minha árvore sobreviver à voracidade do progresso, então viverei eternamente—não só nas memórias dos meus, mas na seiva que circula silenciosa, nos frutos que amadurecem a cada ciclo, na sombra que acolhe gerações.

Encerro minha reflexão olhando para o alto, admirando como as folhas dançam ao vento, livres e despreocupadas, e como as raízes, invisíveis, sustentam tudo que é visível. Aprendo que, na vida, é preciso saber viver tanto na profundidade quanto na leveza. Ser raiz e ser folha, ser sombra e ser luz.

A árvore me ensinou a valorizar o presente, a preservar o passado e a acreditar no futuro. Que minha história, como a dela, seja um abrigo para sonhos, uma fonte de força e renovação. E que, quando chegar o momento de partir, eu possa repousar sob sua proteção, tornando-me, enfim, parte do ciclo infinito do existir.

Assim, sob a árvore frondosa, encontro paz, gratidão e sentido. O mundo verde é, sem dúvida, mais saudável, mais belo, mais humano. A eternidade, afinal, está naquilo que criamos para além de nós—nas árvores que plantamos, nos frutos que deixamos, nas sombras que oferecemos…

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