Jornal Tribuna

A cara do bem genuíno

Por Jaeder Wiler·

O bem verdadeiro é silencioso. Desconhece holofotes, dispensa palcos. Não há trombetas para anunciar a gentileza e nem fogos de artifício para celebrar o que é naturalmente bom. O bem simplesmente é, como uma brisa sutil que refresca sem se dar por notada, como um abraço ofertado quando ninguém está olhando.

Em cada esquina, a bondade se manifesta em detalhes quase invisíveis: o gesto de ajudar alguém atravessar uma rua por ele não poder enxergar o perigo, a mão que oferece alimento a quem sente a fome e a solidão, o impulso de agir antes mesmo do pedido. Quem faz o bem não espera, antecipa. Não precisa de reconhecimento, porque o sentido do bem é a própria existência do outro.

Mas ainda vivemos, neste século, a sombra densa do mal, escancarada nas guerras que devastam territórios e vidas. A carnificina arrasta com ela sonhos e esperanças, e o sofrimento se derrama sobre inocentes, idosos, crianças, mulheres. A maldade coletiva, institucionalizada, se impõe como uma tempestade sobre a humanidade. Nesses campos de batalha, o bem parece minúsculo, impotente, esmagado pela ânsia de poder e de posse. Os senhores da guerra disputam troféus que não valem mais do que o sangue derramado. Para quem perdeu tudo — casa, teto, pão — as perguntas se acumulam, o sentido se evade.

Diante das atrocidades que ecoam pelas telas, é impossível conter as lágrimas. O coração vacila ao testemunhar a dor de quem nada fez, salvo nascer em um lugar errado, na hora errada. Enquanto os poderosos travam batalhas por territórios e ambições vazias, os inocentes pagam com a própria existência. Nessas horas, o mal é explícito e brutal, e o bem, por mais genuíno, parece insuficiente.

Ainda assim, mesmo em meio à devastação, é no gesto simples, na solidariedade espontânea, que reside a esperança. Talvez o sentido do bem seja este: não salvar o mundo inteiro, mas fazer diferença no universo de um só indivíduo. Afinal, para quem perdeu tudo, a linha entre o bem e o mal pode se tornar turva, mas cada pequeno ato de humanidade é uma centelha contra a escuridão. E é nela que, silenciosamente, o bem insiste em existir.

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