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Pseudoverdades: uma armadilha cognitiva.

Por Edição Jornal Tribuna·
Pseudoverdades: uma armadilha cognitiva.

Nos últimos anos, o mundo foi bombardeado pelo fenômeno das Fake News. Fake News todos sabem o que são, aqueles textos (geralmente com imagens, mas não necessariamente) cujo conteúdo não traz uma informação, mas objetiva criar um fato a partir de um outro tomado de forma descontextualizada, ou fazer colocações sem a existência de quaisquer indícios legítimos. Estamos, assim, diante de um fenômeno que, se não é inteiramente novo, ao menos supera em muito a proporção que atingira em tempos anteriores, pois, 24h por dia, temos, literalmente à mão (em virtude da proliferação de celulares) e vindo de todos os lugares, exemplares “fresquinhos” desse material. Ocorre que as Fakes não devem ser vistas como um fato isolado. Elas se relacionam a algo maior, a saber, às pseudoverdades. O que seriam pseudoverdades e o que as difere da simples mentira?

Mentira, como qualquer criança pode saber, é o contrário da verdade. Ocorre que, na mentira, não existe dúvida, pois o fato, por ser objetivo, pode ser verificado e ter sua confirmação. Podemos usar, como exemplo, o famoso argumento do terceiro do excluído, do filósofo grego Aristóteles, que pode ser explicado no seguinte exemplo: “se a cadeira é amarela, ela não pode ser azul e não existe outra possibilidade”. Uma pseudoverdade é muito mais complexa e sutil do que a simples constatação de uma mentira ou falsidade, pois envolve algo muito maior, como veremos mais adiante.

Nossas experiências particulares geralmente prevalecem ao formarmos nossos juízos. Cada um de nós, assim, possui uma maneira especial de se relacionar com o outro e com o mundo. David Hume, filósofo escocês do século dezoito, dizia que todas as nossas ideias se baseiam em crenças que aceitamos por indução e qualquer demonstração de um argumento envolve um enorme número de causas, como, por exemplo, um gol feito por um jogador de futebol. Até a bola tocar a rede, várias causas se sucederam. Assim, nas nossas experiências nada é necessariamente lógico, de sorte que podemos esperar qualquer resultado mesmo em coisas simples como chutar uma bola diante de um gol aberto.

Porém, a maioria de nós não aceita isso. Queremos pôr um número finito de causas e resultados e ver o mundo se ajustar às nossas mais simples expectativas, as quais baseiam- se no que entendemos por moralidade. Tomamos nossos valores como superiores, pois, neles, acreditamos encontrar uma “prova” de que a vida possui um sentido ou que nada fora feito em vão. Tudo bem, mas o que isso tem a ver com as pseudoverdades?

Como dissemos acima, o hábito “cria” em nós a ideia de que as coisas são como acreditamos que elas devam, de fato, ser. Afinal, se a religião, o estado, personalidades que julgamos relevantes, nossos pais, amigos, etc., acreditaram, porque eu não deveria também? Ocorre que, como vimos, podemos colocar tudo de nós em certas convicções e, desse modo, em um ato de desespero, aceitarmos os mais flagrantes absurdos em nome daquelas. É assim que as pseudoverdades ganham amplo espaço em nossas vidas, pois o que está em jogo não é verdade ou a mentira, algo do âmbito da observação e da discussão, mas o que elas sustentam: nossas mais íntimas crenças, ainda que elas reflitam o modo particular como cada um experiencie seus fundamentos.

As pseudoverdades baseiam-se em situações concretas em que acreditamos serem resultado de alguma causa especial. Por exemplo, uma garota que sai de uma vida de extrema pobreza, trabalha e fica rica, torna-se exemplo e favorece a crença de que o trabalho e a persistência superam todos os obstáculos. Esquecemos os inúmeros casos de garotas que não tiveram a mesma sorte e acabaram vítimas de algum destino infeliz. Nesse caso, olhamos para o lado esquecendo as terríveis condições de vida da maioria das jovens que se encontram em condição de vulnerabilidade e focamos em um resultado objetivo com base em uns poucos exemplos particulares unidos ao valor do trabalho (independente de suas condições) nas sociedades industrializadas.

Se formos “mais a fundo”, as pseudoverdades remontam a um tipo de dualismo que elege o bem e o mal a partir de uma visão particular de mundo, a qual nos leva, consequentemente, a admitir em nosso “time” (para ficar na metáfora esportiva), qualquer um, desde que advogue em favor de um cenário que favoreça as nossas crenças básicas, mesmo que sequer tomemos conhecimento de suas razões para tal. Apegados a nossas ideias de maneira fanática, tornamo-nos manipulados e acabamos cúmplices de atos que nós mesmos recriminamos, causando sofrimento aos outros (que é o mesmo de causar a nós, pois alegrar- se com a dor do outro é uma forma perversa de satisfação, uma parafilia conhecida na psicologia como sadismo, portanto, uma aflição mental, patológica). O Ciclo se fecha em nós. Nos perdemos na tentativa de nos salvar, sofremos tentando sermos felizes. O mundo segue seu ritmo e frustra-nos diariamente porque muitos são diferentes de nós. Eles não querem saber do deus que dizemos acreditar e nem dos valores que dizemos seguir. Mais sofrimento, mais desespero, mais pseudoverdades para alimentar nossa autodestruição para não reconhecermos que nossas “verdades” se equivalem a tantas e tantas “outras” por aí.

Em síntese, pseudoverdades são frágeis como delicadas teias de aranha. Cabe a nós decidirmos se queremos partilhar do destino dos pequenos seres que nelas são capturados ou se as afastamos com um leve mover de dedos.

Autor:

Adriano Bittencourt. Pesquisador na área de Ética e Filosofia Política na Universidade Federal do Ceará – UFC.

1 Comentário

  1. Lauciméia da Silva Victor dos Santos
    Lauciméia da Silva Victor dos Santos

    Gostei do texto . Muito bem redigido. Parabéns Sr. Adriano Bittencourt.
    Gostaria de saber escrever assim…
    Parabéns

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