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Os Insanos do Sagrado

Por Edição Jornal Tribuna·
<strong>Os Insanos do Sagrado</strong>

       Na última Sexta – feira (14/08), Salman Rushdie sofreu um doentio atentado. Estava prestes a dar uma palestra no Instituto Chautauqua, Nova York. De súbito, Haid Matar, de 26 anos, subiu ao palco e desferiu algumas facadas no escritor. Ele está em grave estado. O médico presente na platéia disse “parecer um mar de sangue.” O que Rushdie fez? Bom, em 1988 publicou sua obra, Versos Satânicos. Britânico, mas natural da Índia, cresceu sob a “auspiciosa” doutrina islâmica, ou seja, era um Mulçumano. O Versos Satânicos satiriza Maomé e a mente petrificada não se quebra com ironias, aí adentro no aiatolá Khomeine. Esse homem abjeto puniu Rushdie com uma Fatwa, pedindo seu sepulcro por apostasia. Não satisfeito, o Aiatolá ofereceu uma enorme soma de dinheiro por sua cabeça. Pessoas ligadas a Rushdie sofreram atentados e um tradutor morreu a tiros.

       Todos que tomaram conhecimento sobre o ataque brutal que Salman sofreu, questionaram o comportamento do pretenso assassino ou viram sua bestialidade refletida com algum júbilo masoquista. Há muito, Salman, um homem das letras, voz da liberdade de pensamento, dissidente das correntes maometanas, desviou – se com maestria de seus algozes. Uma vez Christopher Hitchens escreveu que “rir da autoridade é o maior símbolo da emancipação humana” e “criticar a religião é essencial.” A sátira de Versos Satânicos é um monumento do pensamento ocidental de raízes iluministas. Imagino o quanto o velho Hitchens teria ficado furioso com tal investida violenta ao seu amigo e intelectual que tinha uma polida admiração.

       Quando aquele homem subiu ao púlpito e deu aquelas facadas, o fluído escorrido era um pouco de cada humanista secular, que ardentemente clamam por respeito ao contraditório. O diálogo é o ponto de partida da retórica e a base das democracias.          Apesar dos pesares, Rushdie está vivo. Mas se não estivesse, estaria nas vozes de cada um de nós, insurgentes da pretensa tentativa de controle das religiões em suas formas mais radicalizadas.

       Impossível não fazer um paralelo com o bizarro discurso da Primeira Dama, Michelle Bolsonaro, no domingo (24/07). Falando de seu marido, atual Presidente da República, enfatizou que “ele é um escolhido de Deus” e “está lutando contra os demônios que antes estavam no Planalto”, se referindo ao Partido dos Trabalhadores. Enquanto isso, nessa síndrome de heroísmo, excluindo todo resto do debate rebuscando a religião cristã, a massa do povo balança bandeiras. Ajoelham-se em devoção incondicional ao seu sagrado político medíocre que é seu objeto de fanatismo. Porém, quando Michelle fala ou um islâmico tenta calar um escritor a facadas, posso considerar uma mesma coisa dos dois lados: como religiosos extremistas, o mundo deve curvar – se a eles, que detém as verdades mais sagradas do universo e estão em uma luta mortal contra os infiéis. Com Rushdie caído, Michelle com um microfone e um islâmico insano com uma faca, quem perde é a democracia e a civilidade. Sinto que o mundo está mais quieto sem Rushdie no pódio.       

Autor:

Felipe Soares

1 Comentário

  1. Jeferson Silva
    Jeferson Silva

    Fantástico o seu texto, me entristece saber que esse extremismo persiste a tanto tempo que não temos esperança de vê-lo acabar. Quem sabe daqui muitas gerações caso consigamos sobreviver neste planeta que aos poucos se torna moribundo . Mais uma vez, uma salva de palmas ao escritor e crítico filosófico

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