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Da escola sem partido ao crianças sem escola

Por Edição Jornal Tribuna·
Da escola sem partido ao crianças sem escola

Talvez por causa da completa incompetência dos vários ministros da educação do governo Bolsonaro o principal tema ligado a educação nas eleições de 2018 atualmente se encontra esquecido. Ninguém mais fala do “escola sem partido”. Mas no apagar das luzes do atual governo aprovou-se por iniciativa da bancada governista um projeto de lei que normatiza o ensino domiciliar, também chamado de homeschooling. Não é difícil perceber que por não conseguir retirar o “partido” da escola a tropa governista agora esta tentando tirar as escolas das crianças.

Estranhamente esta é a única proposta de grande alcance do atual governo na área da educação, mesmo sendo um dos assuntos centrais da militância bolsonarista. E ainda mais estranho que a iniciativa não tenha ocorrido durante o distanciamento social imposto pela pandemia de corona vírus. Durante quase dois anos a realidade educacional brasileira foi forçada a ir para o ensino a distância, sem nenhum período de adaptação, no improviso. Para os defensores do modelo de ensino domiciliar era uma chance única de se iniciar o debate sobre as vantagens da ideia, bem como quais seriam as adaptações necessárias para que os alunos não acabem sendo prejudicados por esta modalidade. E nada foi feito neste sentido.

Juntando este fato com a aprovação do Projeto de Lei em regime de urgência é possível perceber que querem impedir a realização de um amplo debate com a comunidade de pais, alunos, professores e educadores. Infelizmente uma manobra muito comum durante a legislatura presidida por Artur Lira, a aprovação com urgência de projetos de lei não urgentes servem apenas para evitar que estes projetos não sejam debatidos nas comissões temáticas. E é nas comissões temáticas que é factível se fazer a parte mais democrática do processo de aprovação de um projeto de lei, as consultas públicas.

Damares Alves e Abraham Weintraub assinam o texto do Projeto de Lei 2.401/99. Uma ligada a bancada evangélica, outro um dos principais olavistas que passou pelo governo Bolsonaro. Ao perceber isto que podemos analisar qual são as intenções políticas por detrás deste PL.

O principal argumento apresentado pelos defensores do ensino domiciliar é o direito que a família tem sobre qual ensino fornecer a seus filhos. Mas há duas questões que os defensores não abordam. O direito da criança e do adolescente de ter uma educação que capacite o aluno a suas atividades profissionais e garantir a qualidade de vida como cidadão. E o dever do Estado, conforme previsto na Constituição, de oferecer este ensino a todos os brasileiros.

A escola não representa somente a principal garantia que o aluno tenha um convívio social, mas também a garantia de que o aluno seja exposto aos valores plurais e diversos de nossa sociedade. É verdade que a família tem o direito de decidir a melhor forma de educar seus filhos mas este direito não pode servir de escudo para a doutrinação dos filhos pelos pais a ponto de prejudicar a liberdade individual que todos temos. Tanto o estado e a sociedade tem o dever de  impedir que famílias mal intencionadas abusem da autoridade que possuem sobre os filhos para impedir que estes desenvolvam plenamente sua liberdade de opinião.

E é exatamente na parte da doutrinação que finalmente podemos unir a proposta de ensino domiciliar com o já esquecido projeto de “escola sem partido”. Acuse-os daquilo que você faz é uma velha tática olavista, adotada a tal extremo que acusam falsamente de ser um lema de Lênin. A retórica dos defensores do “escola sem partido” era a que o atual ensino público brasileiro sofre de uma doutrinação partidária da esquerda (o famoso marxismo cultural olavista). E para evitar que esta doutrinação permaneça, seria necessário limitar a liberdade dos professores para evitar que estes contrariem os valores familiares do aluno.

Os principais tópicos que incomodavam os defensores do “escola sem partido” eram o ensino das questões de gênero e orientação sexual e pontos históricos supostamente polêmicos, como se o Golpe de Estado de 1964 foi um golpe. Alguns também colocariam nestes temas a serem evitados a evolução biológica, ou o holocausto nazista, ou as religiões de matriz africana. E obviamente educação sexual  que fosse além de falar de DST´s e abstinência sexual.

O que se tentava fazer era evitar que os alunos fossem expostos a visões contraditórias. Que uma criança não conhecesse outra visão além daquela defendida por sua família. E agora que estes grupos não conseguiram retirar o debate plural das escolas, resta então a hipótese de retirar as crianças das escolas, para que não sejam expostas ao inexistente marxismo cultural.

Não entra no raciocínio destes grupos que o desenvolvimento social de uma criança pode ficar seriamente comprometido sem o ambiente escolar, a primeira sociedade mais ampla que a família que uma criança conhece. E ainda esquecem a função de proteção e fiscalização das escolas contra a violência doméstica e até sexual. Professores e educadores são a principal defesa das crianças contra famílias abusivas.

Isto significa que o ensino domiciliar deva ser proibido para toda e qualquer situação? Talvez não. Não sou especialista para compreender todas as facetas e situações. Mas com certeza a decisão sobre se devemos permitir famílias a educar suas crianças sem escolas e quais medidas de regulamentação e fiscalização seriam necessárias caso autorizemos esta modalidade de ensino deve ser feita de forma ampla, democrática e sem falsas urgências.

Cabe a pais, alunos, professores, pedagogos e educadores analisar a complexa questão dos limites do direito da família sobre a educação de seus tutorados. E não a um grupo pequeno e não representativo aproveitar um momento político tumultuado para permitir que famílias extremistas doutrinem as crianças brasileiras.

Sem a participação da sociedade corremos o risco de criar uma geração de crianças incapazes de pensamento crítico plural, e de conviver com a diversidade de opiniões. Em um mundo de fake news e negacionismo isto se torna especialmente perigoso.

Autor:

Aniello Greco

1 Comentário

  1. Jorge
    Jorge

    Excelente artigo, parabéns.

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