Fechei a porta do quarto e confrontei-me com a dureza de um lugar todo meu. Somente então, sozinha em meio à penumbra e a meus próprios silêncios, dei-me conta de que não sabia quem era. Isso de silêncios é algo brutal que me surge quando deito sozinha na cama forrada de azul e percebo um tanto desconcertada o vazio de minhas palavras.
Quando dormia ao lado do homem, isso soava mais leve e menos visceral por haver alguém com quem partilhar a visceralidade de ser mulher e humana. Tendo partido o homem, fiquei só com o quarto e os lençóis.
Nesses momentos, costumo me despir até a intimidade e olhar perdida a janela. Moro num edifício e isso me permite ver a languidez da avenida nas altas horas da noite, quando as palavras param de fazer sentido e sobra-me o “isso”.
Desejo, então, o que não tem nome. Me reviro de ânsias pelo que não sei falar e sofro ardentemente pelo que nem sei se poderia ter. Embalde o choro. Inútil minha luta sem razão. O inominado segue ali: tão inconcluso e absurdo quanto uma gota de mostarda em meio ao jarro de água….
Deito-me na cama. Me reviro sentindo a dor nas costas. As paredes se retorcem em indizível imobilidade. O sono. Os sonhos tão iguais à realidade do que, sem ver, vejo dia após dia.
Amanhece. Me visto. Tomo o café.
–C’est la vie, Madame. C’est la vie.-
Autoria:
Ariel Von Ocker