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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Predestinação do Nome

Quando comecei a escrever acreditei piamente durante os primeiros meses – ou semanas – de que aquilo era minha vocação. Escrevia muito mal, ainda não escrevo bem, mas tinha certeza de que eu queria fazer isso até meu último dia de vida. Fosse como hobby ou como trabalho. Não via e ainda não vejo outro rumo que me satisfaça tanto quanto escrever. Somente uma coisa me segurava naquela época. Apenas um fator impedia-me de empregar todos os meus esforços nesse “sonho”: o meu nome.

Quer dizer, era um dos vários pequenos acidentes da vida que usava para justificar a mim mesmo minha falta de comprometimento e inviabilizar qualquer perspectiva de um futuro nesse meio.

Os romanos acreditavam que o nome carregava junto de si uma predestinação. O nome era o áugure do sujeito. Chamam isso hoje em dia de “determinismo normativo”. Essa denominação terminológica faz perder um pouco a magia da ideia. Enfim, cada nome e sobrenome carrega uma personalidade própria, uma tendência a certos interesses e a inclinações a determinadas vocações. Caso o leitor não tenha entendido muito bem, ou tenha entendido, mas não concorda com essa suposição, tente nomear atores, músicos ou poetas notáveis com nomes como “Pedro Henrique da Silva” ou então “Lucas Santos de Oliveira”. Pode também o leitor se lembrar e comparar pessoas conhecidas que têm o mesmo nome. Geralmente suas personalidades têm alguma semelhança.

Já na adolescência, antes mesmo de saber da existência dessa concepção romana, acreditava que meu nome consistia em uma limitação. Ele era o limite negativo de minhas ambições. Eu não poderia ser um escritor ou um teórico notável com o nome “Filipe Pereira Mauricio”. Pode parecer uma afirmação rude e até mesmo uma expressão de ingratidão ou vergonha, mas não é nada disso. Sentir vergonha da própria família é desprezar-se a si mesmo

– além de ser de uma ingratidão tremenda. Aliás, eu gosto muito do meu nome. O que eu quero dizer é que, acreditava eu estar fadado à mediocridade literária, ou jornalística, ou artística, ou intelectual, que seja, por causa de meu nome. “Filipe Pereira Mauricio” não caberia – e nunca caberá, apesar das altas ambições – ao lado de “Miguel Reale”, “Graciliano Ramos”, “Machado de Assis”, “Lima Barreto” ou “Érico Veríssimo”. Não se acha este último nome procurando-o em empresas ou no funcionarismo público, isso é nome de gênio. É isso que quero dizer. Eu achava meu nome demasiado comum.

Na época esta era minha muleta perfeita. Meu nome já determinava que não seria um gênio. E eu, como grande ambicioso que sou, já que não seria um gênio, para quê me

comprometeria com um esforço? Seria como Sísifo. Na realidade, pior que Sísifo, porquanto, apesar do esforço, minha pedra nunca sairia do lugar. Andava a passos curtos e mancos, como se coxo fosse, e pensava comigo mesmo não haver necessidade de pressa ou dedicação. Pode parecer besteira aos olhos do leitor, mas essa ideia me atormentou por uns bons anos. Eu realmente acreditava que passaria a vida despercebido, no anonimato completo, não seria quem eu queria ser. Me encontraria, no fim da vida, na mais pura mediocridade e desilusão, tudo isso devido ao meu nome. Não que isso fosse ruim, ser uma pessoa comum com suas próprias ambições e metas e não alcança-las é o destino da maioria. Mas apenas cogitar o fracasso me causava um desconforto tão grande a ponto de me fazer mover.

Me preocupava ainda mais quando alguém de minha estima não se lembrava de meu nome. Professores de escola ou parentes os quais secretamente admirava e por ventura se esquecessem brevemente de meu nome fazia-me recordar dessa questão irresoluta. Imaginava- me como Brás Cubas. Cheguei ao ponto de procurar outros Filipes históricos. Não vou me estender muito nisso, mas confesso que fiquei feliz com os resultados, como se meu sucesso pessoal dependesse do desempenho de outros Filipes, Pereiras e Mauricios.

Essa crença passou quando veio a maturidade. É claro, o nome exerce certa influência, assim como os fatores externos e os genes herdados dos antepassados. E confesso que as influências do nome e dos antepassados têm mais me ajudado do que me prejudicado. Só preciso lutar um pouquinho contra a intransigência. Fora isso, a conformação às influências ou a luta contra elas faz parte justamente da construção e alteração do “eu” como indivíduo autônomo, porém influenciável. Já dizia o filósofo espanhol “Yo soy yo y mi circunstancia”.

Quão mais contrário seu objetivo for em relação às suas circunstâncias internas e externas, maior deverá ser o esforço empregado para alcança-lo. Viver é justamente bater de frente com determinações ou se conformar a elas. Se colocar como fantoche à mercê das determinações, sem qualquer questionamento em relação a elas, é mais vergonhoso que enfrentá-las e sair derrotado. Lição essa que aprendi com meu Isaías Caminha e as encostas do Rio, que apesar de pisadas inúmeras vezes e por inúmeras formas, não deixaram de “fazer surgir plenamente sua energia vital”.

Na verdade, não acredito mais nem que preciso ser uma pessoa notória, conhecida ou qualquer coisa do tipo para me realizar como indivíduo. A notoriedade é a consequência – talvez até ruim – de minha realização pessoal. Iria dizer que seria como um sinal, uma comprovação, mas notoriedade não é sinônimo de realização muito menos de qualidade intelectual ou literária. Nota-se isso principalmente no último século de nossa história.

Esses dias cheguei a comentar sobre esse assunto com um amigo. Antes de terminar o discurso e explicar que não me importava mais com a predestinação do nome, sugeriu-me inventar um pseudônimo. Como foi que isso me escapou!

Autor:

Filipe Pereira Mauricio

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