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domingo, 15 de março de 2026

Frutos do Éden

Em seu trabalho de criação do mundo Deus fez tudo em seis dias e descansou no sétimo. Porém, as pessoas desconhecem a trabalheira que foi para criar o Jardim do Éden. Segundo as palavras do profeta Moisés, a quem se atribui a redação do Livro do Gênesis, “O Senhor Deus fez brotar da terra toda sorte de árvores de aspecto atraente e de fruto saboroso ao paladar, a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal”. Moisés omitiu que, para realizar tal tarefa, Deus pediu ajuda aos seus anjos. Cada anjo deveria apresentar um fruto para ser inserido no Éden, permitindo que Deus continuasse a criação dos planetas, estrelas, cometas e todas as coisas do Universo infinito. O único fruto criado por Deus foi a “maçã”. Todos os outros, teve participação direta dos anjos.

Chegado o dia da apresentação dos frutos, Deus chamou os anjos, um a um. Cada anjo deveria apresentar seu fruto, dizer como era e dar uma prova para Deus.

– Anjo Juan Hernandez, qual fruto vai apresentar? Disse Deus todo animado com o trabalho coletivo.

– Mestre, trago aqui este fruto de cor verde. Ele tem uma casca fina, polpa cremosa e um caroço sólido. Seu nome será “abacate”. Espero que o senhor aprecie.

– Pô Hernandez, você copiou a estrutura que eu criei para a Terra? Tudo bem, deixa eu provar. Hum, mas não tem gosto de nada. Será que vão gostar desse fruto?

– Mestre, com todo respeito, esse fruto poderá ser batido com leite e açúcar. Essa mistura será chamada de “vitamina”. Mas também, lá no lugar onde eu trabalho, o México, será inventado uma mistura com temperos salgados, e darão o nome de “guacamole”. Será um sucesso nos restaurantes.

– Anjo Manuel, sua vez. O quem tem para apresentar?

– Mestre, trouxe aqui um fruto também verde, porém bem menor que o tal abacate. Isso permitirá mais frutos por cada árvore. Seu nome será “azeitona”.

– Boa estratégia Manuel! Vamos provar. Ué, esse fruto também não é doce. Pelo contrário, tem um gosto meio amargo. Acho que esse fruto não vai para o jardim.

– Mas Mestre, esse fruto vai ter muita utilidade na vida de Adão e Eva, e de todas as pessoas que virão depois. Ao ser prensado, dá origem a um óleo, o “azeite”, que será muito utilizado na culinária, inclusive no período da Semana Santa, que será criada daqui a alguns milênios, para temperar aquele peixe que não tem cabeça.

– Que peixe não tem cabeça, Manuel? Perguntou Deus, intrigado.

– Bacalhau! Alguém já viu cabeça de bacalhau? Ah! Desculpe, o senhor já. Foi o senhor quem criou. Depois pode mostrar como é?

– Anjo Gita! Sei que você trabalha na Índia e que lá os nomes têm sempre significados nobres. Gita, significa “sublime canção”. Qual fruto vai apresentar?

– Mestre, eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando, foi justamente num sonho que descobri meu fruto. Ele é comprido e verde, mas fica amarelo quando está pronto para ser consumido. Seu nome será “banana”.

– Gita, não sei por que, mas o início de suas palavras me lembra algo. Vamos experimentar esse fruto. Finalmente um fruto saboroso ao paladar! Mas ele é meio mole. Acho que pode virar piada. Vamos fazer o seguinte: criaremos vários tipos de “banana”, associando a outras coisas. Teremos banana ouro, prata, da terra, d´água, nanica e, claro, maçã.

– Está animada essa feira! Anjo Platão, apresente seu fruto.

– Pois não, Mestre! Meu fruto é redondo e tem uma casca matizada, prevalecendo o vermelho entre tons de amarelo e verde. Seu nome será “romã”. Já adianto que tem sabor um pouco azedo. Mas quem não tem uma vida com seus dissabores, não é mesmo?! Porém, a superstição em relação a esse fruto será um grande sucesso. As pessoas guardarão as sementes acreditando que obterão abundância. Será um Mito!

– Deixe essa filosofia barata para depois. Vou colocar esse fruto no Jardim. Demora muito para madurar? Estou “curioso” para conhecer suas sementes.

– Agora é a vez do anjo asiático Aafaaq. Diga lá, como é seu fruto?

– Mestre, que Alá nos proteja! Para criar meu fruto pensei nos lugares onde a água é escassa. Ele tem um reservatório de água dentro. Tem uma casca verde e polpa branca, como a neve. Seu nome será “coco”. Ele é um pouco difícil de abrir, mas compensa o esforço.

– Pouco difícil? Já tentei descascar de todo jeito. Não tem como abrir esse fruto. Como faz?

– É simples mestre. Só precisa de um facão amolado. Se o Senhor achar conveniente, pode até colocá-lo no meio do Jardim. Duvido que a serpente e Eva consigam comê-lo.

– Deixa quieto anjo Aafaaq. Vou colocar esse fruto na beira do Jardim, perto da praia. Agora, vamos ao último anjo e seu fruto. Anjo Francisnaldo, a palavra é sua.

– Ôxe, Mestre! Meu fruto é uma revolução. É redondo, verde e a árvore fica carregada. Pode até parecer azedo, mas se acostuma rápido, principalmente quando é misturado com uma planta que adoça, e sua fermentação dá alegria. Meu fruto se chamará “limão”. Já até inventei um desafio popular: “quero ver chupar limão sem fazer careta”.

– Que isso Francisnaldo?! É azedo demais! Realmente não dá para chupar o limão sem fazer careta. Mas fiquei curioso com a tal mistura feita com a tal planta. Já tem nome?

– Sim, Mestre. Foi batizada de “caipirinha”. Posso preparar uma dose para o Senhor provar?

– É melhor deixar para o sétimo dia.

Diz a lenda divina que, depois de provar a “caipirinha”, Deus criou o morango, caju, caqui, damasco, goiaba, guaraná, jabuticaba (quase não conseguiu falar o nome), mamão, …

Autor:

Manoel Júnior

(Crônica escrita em fevereiro de 2026)

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