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UM NOVO SALTO DA REALIDADE LINGUÍSTICA

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Já é possível constatar que a ciência, ou melhor, as ciências evoluem! Teorias fixas consideraram, por séculos, ser o átomo a menor partícula indivisível existente. Para Aristóteles o coração era a sede da inteligência e não o cérebro. O estudo da linguagem, originalmente voltado a uma incessante busca por normatizações de perfeição verbal e escrita, da gramática de Pãnini às primeiras postulações de Bakhtin; da associação à Filologia, História e Literatura, à aceitação científica inaugurada com Saussure, igualmente passou por mudanças e rupturas de paradigmas, até apresentar-se, e ser aceita, como Ciência Linguística.

A evolução dos estudos linguísticos, a partir da década de 60, é espetacularmente notável! Porém, igual a todas as vertentes científicas, mesmo com este status recente, seus saltos cada vez mais avançam distâncias maiores. A Sociolinguística Variacionista, verdadeira expansão das primeiras observações registradas por Saussere, embora muitos considerem fortemente contrastante, defendida e metodologicamente descrita por William Labov, já não pode ser negada como expansão da matéria original.

Atualmente já podemos perceber novas vertentes, onde estudos de áreas específicas da Linguística vão transformando-se em especialidades direcionadas. Assim como a Medicina forma pediatras, oftalmologistas, traumatologistas etc., e todos igualmente são médicos, também a Linguística passou formar sociolinguistas, analistas de discurso, linguistas textuais, e todos com a formação principal em Linguística.

O objeto de estudo da Linguística está naturalmente se expandindo. A aceitação da análise do discurso, dentro do escopo deste objeto, permite até mesmo o resgate de conexões importantes que foram relegadas nos momentos do estruturalismo. Reatar com a Filologia, História e Literatura, dentro de uma perspectiva sociolinguística, agiganta o conhecimento permitindo maior compreensão dos fenômenos linguísticos e desmonte de preconceitos insanos. Rompendo, assim, regras fixas que consideram possível que apenas pelo conhecimento das regras estruturais de determinado discurso, um estudante seja capaz de cria-lo. Verbalizar um discurso, ou mesmo produzir um texto, exige muito mais do que apenas o conhecimento das regras que o delimitam dentro de um estilo ou forma. É preciso recordar sempre que a comunicação, seja verbal ou textual, envolve a premissa de emissor e receptor. Neste caso, de criação, o emissor precisa ter interação com o receptor, do contrário não ocorre a comunicação. Minimamente o conhecimento do receptor já auxilia a elaboração discursiva ou textual, mas não garante a efetividade se não houver real interação.

Outrora os textos eram “coisas sagradas”, provinham de grandes mentes cultas e detentoras da verdade. Observamos que a textualidade perdeu muito da credibilidade que a empoderava. O avanço tecnológico derrubou muitas pretensas verdades, e textos tidos como cultos, ou cultuados, já são livremente questionados.

Por outro lado, a expressão verbal ganha corpo e participa ativamente da linguagem corporal, com gestos e expressões faciais. Não será surpresa se, em breve, a Linguística também se aproximar, ou até abarcar, a linguagem corporal e/ou expressiva, em seu objeto de estudo.

O conhecimento sempre nos liberta. A manipulação discursiva, em suas vertentes (religiosas, jurídicas, técnicas etc.) serão cada vez mais estudadas e tornar-se-ão acervo fundamental da linguística. Sem contar os ditos fenômenos discursivos que exigem análises meticulosas para sua compreensão, por exemplo a dêixis, as modalidades, a performatividade, a polissemia e o duplo sentido, a argumentação, a implicitação, a polifonia e a heterogeneidade. Um conjunto de fatores que justificam esta natural expansão e que provocam para um crescimento ainda maior.

Obviamente a Linguística Textual também amplia vertentes e jamais poderá ser diminuída diante da discursiva, até mesmo por ambas entenderem o discurso e texto como uma unidade, verificando que esta produção não segue um conjunto de regras fixas.  

Se estruturalismo francês mapeou a fala como alvo dos estudos linguísticos, dando ao falante o topo do podium, quebrando certezas desta relação com a linguagem, deixou de lado a unidade da fala refletida no discurso e texto. Felizmente todas as ciências evoluem e ultrapassam o positivismo científico.

A Linguística, como ciência, segue os passos da evolução, da expansão, sem medo de errar e sem medo de reencontrar algumas das velhas parceiras de estudos.

Saulo Semann

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