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segunda-feira, 15 de abril de 2024

Reformas e confusão no planejamento dos móveis mal planejados

Recebi a mensagem e fui à clínica de repouso, mas não pude vê-la, nem deixar as flores e o chocolate que pediu. Disseram que avisarão quando ela puder receber visitas. Para explicar o que houve, terei de retroceder umas semanas.

Rosiris trabalha com móveis planejados: armários embutidos, cozinhas, estantes etc. Recebe pedidos, analisa a planta, visita o imóvel e elabora o projeto. Aprovado o orçamento, faz as encomendas na fábrica e acompanha a montagem. Tudo seria bem simples se não fosse pelas dificuldades: montadores, pessoal de hidráulica, elétrica, marmoristas, proprietários indecisos, decoradores sem noção, arquitetos aloprados, gente palpitando e zeladores chatos. Ela diz que adora o que faz, mas alguns projetos dão nos nervos. Nesse ramo, com fala mansa e um bom porrete, a pessoa pode ir longe. Seu último projeto foi para o seu Osório.

Viúvo, prestes a se casar com Charlene, 36 anos mais nova, seu Osório chamou Rosiris para cuidar dos planejados, mas a noiva envolveu a prima Eva, arquiteta formada a distância durante a pandemia, indicou encanador, eletricista, pintor e marmorista, todos clientes do Cabaré onde conheceu o futuro marido. A decoradora será a stripper Cloé, sua parceira de Pole Dance e dama de honra no casório.

Seu Osório, fanho e resfriado, não sabe usar WhatsApp e informou o endereço por telefone. Fuinha, o faz tudo (errado), ensino básico incompleto, anotou os dados em meio aos ruídos de uma obra e repassou o endereço com caligrafia hieroglífica, gerando confusão: Rua 13 de Maio ou 23 de Maio? Apartamento 32 B, 32 D ou 23 C? Números e letras sempre o confundem. Seu Osório não lembrava o número do imóvel, mas disse que é um prédio não muito alto, branco ou bege, perto da padaria. Waze, e Google Maps não localizaram o endereço.

Rosiris visitou o apartamento 32 D da rua 13 de Maio, mas Eva e Cloé viram outros imóveis. Nos endereços fornecidos haviam quatro imóveis à venda e um vago, com os proprietários viajando. Seu Osório gostou do projeto da Rosiris e a noiva Charlene gostou do esboço da Eva e das ideias da Cloé, todos para imóveis diferentes. As três não se conhecem.

No dia da montagem, Rosiris foi à rua 13 de Maio, Eva, Cloé e os empreiteiros foram a outros endereços. Quando menos se espera, aí é que nada acontece! Constatada a confusão, as três mandaram mensagens para seu Osório, mas como ele não usa WhatsApp, foram até sua casa. Ele mostrou a proposta de compra: rua 3 de Maio 323, apto 32 C. Rosiris, Eva e Cloé foram visitar o imóvel correto e ver o que dá para fazer, mas esqueceram de avisar os empreiteiros.

Projetos diferentes, medidas que não conferem, empreiteiros batendo cabeça, mas a montagem teve início mesmo assim. Sobraram peças nuns cômodos, faltaram em outros, pia da cozinha menor que o gabinete, armários embutidos maiores do que os vãos, furos para tomadas em pontos errados, geladeira sobre o ralo da cozinha e fogão longe do ponto de gás. Para Fuinha, dá para resolver tudo com serrote e umas gambiarras. Ao saber da confusão, o proprietário telefonou para seu Osório. Disse que cansou de esperar pela proposta assinada e vendeu o imóvel para outra pessoa. O novo dono foi ao local com sua arquiteta e não gostou do que viu.

Choveram reclamações: banheira com vazamento em um apartamento, pintura não solicitada em outro, paredes perfuradas, privada impedindo abertura da porta etc. Telefonaram da loja de tintas informando que não encontraram o prédio na 23 de Maio. Fuinha disse: é só questão de calendário. Pelo menos o mês está certo: maio! Basta ajustar a data. O comentário de Fuinha não ajudou e as moças começaram o bate-boca e a acusação. Seu Osório infartou, foi levado ao hospital, mas não resistiu. 

Rosiris, Eva e Cloé projetaram gratuitamente o túmulo e Charlene aprovou. Após a missa de sétimo dia, as quatro foram visitar o local. Conversavam sobre a obra quando Fuinha e dois estranhos se aproximaram.

  • Sou o administrador do cemitério e vim tratar da exumação.
  • Que exumação? – perguntou Charlene.
  • O túmulo da quadra 2, lote 3, pertence a outra família.
  • Aqui está o recibo: Chi! É quadra 3, lote 2. Que mancada!
  • Eu não estive no velório do tio Osório porque vocês erraram o endereço. O túmulo dele fica em outro cemitério!
  • Onde instalo o mármore “travesti” e o granito “boiolado”? – perguntou Fuinha.

Bem, isso foi o resumo da confusão que causou a internação da Rosiris por estafa. Dez dias após eu visitar a clínica, levar flores e chocolate, ela me telefonou muito irritada.

  • Se eu tivesse morrido, você pelo menos teria ido ao velório?
  • Quem está falando?
  • Rosiris, sua namorada, seu babaca!
  • Ah! Lembrei. Recebi a mensagem, não entendi nada e resolvi ir à clínica Maio para ver o que estava acontecendo. Levei flores e chocolate, mas disseram que você não podia receber visitas.
  • Clínica Maio? É Clínica Maia, seu imbecil! Você bebeu, Mário?
  • Quem é Mário? Meu nome é Mauro. Que número você digitou?

Após uma hora ao telefone, ficou claro que Rosiris tinha tantos “maios” na cabeça que errou o nome da clínica. A mensagem era para Mário, seu namorado, mas ela errou o número e enviou para mim, Mauro, que nem a conhecia. Estranhei e fui ao local para ver o que rolava. Azar do Mário, que não deu as caras e acabou sem namorada. Eu e a Rosiris começamos a sair. Ela é bonitinha, mas se não mudar de ramo, tô fora! Não quero namorada neurótica! Vida que segue.

Laerte Temple
Laerte Temple
Administrador, advogado, mestre, doutor, professor universitário aposentado. Autor de Humor na Quarentena (Kindle) e Todos a Bordo (Kindle)

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