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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Cicatrizes silenciosas – revivendo a dor estando do outro lado

Em seu oitavo semestre na faculdade, Ana respirou fundo para o próximo passo que estava à sua frente: estagiar numa clínica de reabilitação psicossocial.

Ao se deparar novamente com aquele cenário tão conhecido por ela, fechou os olhos e reviveu todos os momentos que viveu dentro de uma clínica.

Há mais de quinze anos estabilizada, ela não deixava de sentir a dor que aquelas pessoas internadas sentiam. A dor psicológica paralisante que envolvia o ser daquelas pessoas foi identificado imediatamente por ela ao adentrar aquele recinto.

Os sentimentos mais amargos e dolorosos vividos por Ana se desenhavam à sua frente enquanto caminhava pelos corredores daquele sanatório, mas uma chama acesa em sua alma a fazia seguir adiante com o objetivo de ajudar aquelas pessoas que careciam de cuidados e amor, como a ajuda que havia recebido outrora em que se viu embalada nos braços de enfermeiros que a todo custo lutavam por sua vida.

Ah! Como Ana entendia os suicidas. Como era fácil para ela compreender os sentimentos mais sombrios daqueles que tentavam e, muitas vezes, conseguiam desistir de viver.

Para Ana era tão fácil sentir a inquietude que habitava a alma daquelas pessoas que foram infelizes em suas decisões.

Infelizes? Será? Seria a morte o pior cenário para aquelas pessoas ou seria a melhor saída para acalmar suas dores invisíveis?

A resposta para aquelas perguntas era a própria existência de Ana naquele lugar: Sim! Era possível sair daquele labirinto de dor e não, a morte não era a melhor saída. Ela havia conseguido sair daquele labirinto e sentia que seu papel era tentar acalmar aqueles corações arrebatados pela intranquilidade psicológica que viviam, atormentados por uma dor imensurável que não jazia com nenhuma medicação.

Olhando ao seu redor, se deparou com uma mulher de seus vinte e poucos anos batendo a cabeça na porta da farmácia gritando e implorando por algum remédio que pudesse acalmá-la e, ao redor dela, outros pacientes circulando pelos corredores que não tinha a menor noção do norte de suas vidas. Ana pensou no quanto seria difícil alcançar o âmago delas naquele momento tão calamitoso que viviam, mas ela tinha esperança de ser feliz em seu novo papel de contribuir para a melhoria de dias melhores para aquelas pessoas.

Ana tinha conhecimento das assombrações que levavam aquelas pessoas a tomarem uma decisão tão drástica e dramática para os seus entes queridos. Internamente ela sabia que quando uma pessoa decidia seguir por aquele caminho, que muitas vezes não tinha volta, não era com o objetivo de chamar a atenção de ninguém; não era para fugir de suas obrigações; não era desânimo e muito menos manha. Era dor na alma, era a procura por um momento de paz, era a busca por um estado de conforto espiritual e encontro com sua verdadeira identidade. A dor sentida por aquelas pessoas que estavam ou que lutavam para não ficarem acamadas era apaziguada com as tentativas de busca para o outro lado da vida. Um lado que achavam que seria menos obscuro, sem o sentimento de dor que não era aliviado com nenhuma medicação e que não tinha explicação; um mundo menos turbulento, onde não haveria vozes que os intimidassem o tempo inteiro, que os perseguiam fazendo com que sua racionalidade os abandonasse e desse espaço apenas para uma vida sem nenhum controle, totalmente desequilibrada, emocionalmente falando.

A magnitude do sofrimento vivido por aquelas pessoas não passavam despercebidos por Ana, uma vez que já vivera momentos de puro exorcismo dos pensamentos mais doloridos que um ser humano pudesse ter. Mas, ela conseguiu emergir daquele lugar que mais parecia um inferno na terra. Bravamente lutou contra aquela correnteza daquele mar revolto e conseguiu respirar aliviada novamente depois de longos anos na penumbra e olhava ternamente para aqueles pacientes e pedia ao Universo para que, como ela, pudessem ter a oportunidade de ver a luz no fundo do túnel.

Ao terminar mais um dia de estágio, constatou que a profissão escolhida por ela lhe renderia vários momentos dolorosos que vivera, mas a vontade de compreender aquela doença que a acometera por tantos anos e o fato de sentir necessidade de acolher aquelas pessoas, falou mais alto e ao se despedir dos enfermeiros, Ana olhou novamente ao seu redor e, internamente, pediu direcionamento para que pudesse ser feliz em seu novo papel de ajudar ao próximo.

Ao fechar a porta do seu carro, respirou profundamente e agradeceu ao Universo por ter tido a oportunidade de sair ainda mais fortalecida daquele labirinto de emoções ao qual vivera tanto tempo e sentiu que estava no lugar certo para dar o melhor de si para aqueles que precisam de seus cuidados e amor.

Autora:

Patricia Lopes dos Santos

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